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Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística
Blog do Geraldo | Brasil

Muita calma nessa hora...

Tue, 08 de March de 2016
Fonte: NTC&Logística

Analisar com isenção os acontecimentos, deixar a intuição fluir livremente (e acreditar nela) é, muitas vezes, mais revelador do que qualquer informação privilegiada. No último sábado, 5 de março – em meio às discussões que se seguiram ao episódio da condução coercitiva do ex-presidente Lula, postei o seguinte comentário no grupo de whatsapp NTC&L, do qual participam algumas das principais lideranças do TRC:

 

 

Quanto ao Lula, acho que, no fundo, não querem nem prendê-lo (preso, ele seria um problema permanente). Para o fim a que se destina toda essa movimentação política, judicial e midiática, basta torná-lo inelegível, como ‘ficha suja’...

 

 

De onde tirei isso? Não sei. Nunca li nada a respeito, nem ouvi de ninguém esta informação. Provocado pela intensa troca de opiniões sobre o atual quadro político, e pela evidência de que o pessoal da Lava Jato ficou perturbado com a reação pirotécnica do ex-presidente (que muitos julgavam politicamente morto), essa possibilidade brotou de repente na minha cabeça. E senti necessidade de registrá-la naquele grupo.

 

 

Pois bem, convido o leitor a ler a matéria postado na madrugada desta 2ª feira pelos jornalistas Flávio Ferreira e Bela Megale, no UOL/Folha, sob o título “Lava Jato cogita abrir ação que impediria candidatura de Lula” (http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/03/1747080-lava-jato-cogita-abrir-acao-que-impediria-candidatura-de-lula.shtml), que confirma, ipsis litteris, o caminho que vislumbrei:

 

 

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ser alvo de ação civil de improbidade administrativa na Operação Lava Jato, que tem como uma das punições a proibição de disputar eleições.

 

 

Lula pode ser acusado nesse tipo de processo caso fique comprovado que empreiteiras envolvidas no esquema de corrupção na Petrobras pagaram custos de obras do sítio frequentado por ele em Atibaia (SP) no final de 2010, quando ainda era presidente, para beneficiá-lo ilegalmente.

 

 

Na Lava Jato, já estão em curso cinco ações de improbidade com pedidos de decretação de inelegibilidade por até dez anos contra (outros) acusados. A Folha apurou que integrantes da força-tarefa do Ministério Público Federal já consideram a possibilidade de que Lula seja alvo de uma causa deste tipo, no âmbito da 24ª fase da Lava Jato, na qual são investigados supostos atos de corrupção e lavagem de dinheiro ligados à propriedade rural.

 

 

Ora, uma ação civil de improbidade administrativa não pode resultar em pena de prisão; quando muito, em caso de condenação, dela decorrerá a obrigação de ressarcimento ao erário, se for o caso. Mas pode resultar em inelegibilidade, com base na “Lei da Ficha Limpa”.

 

 

Impossível garantir, de antemão, que isso acontecerá. Mas não vejo uma discussão consistente na mídia a respeito dessa possibilidade. Aliás, algo muito parecido aconteceu com a questão da eleição indireta para presidência, em caso de cassação pelo TSE – que foi objeto de outro artigo (sob o título: “Como nos velhos tempos”), que publiquei neste blog em 16/02/16. Por mera coincidência, dias depois disso começaram a sair, timidamente, algumas notas, na grande imprensa, sobre a possibilidade concreta de virmos a ter um pleito indireto para presidente da República, culminando, no último domingo, com um certeiro comentário do brilhante jornalista Elio Gaspari (http://m.folha.uol.com.br/colunas/eliogaspari/2016/03/1746854-moro-deu-a-lula-o-papel-de-coitadinho.shtml?mobile).

 

 

Não faço este registro para postular “furo” ou precedência. Não sou jornalista; não vivo de dar ou comentar notícias. O meu objetivo, aqui, com essas observações, é apenas o de instar o leitor a desarmar o seu espírito, a sair do tiroteio em que se transformou a repercussão dos fatos revelados quase semanalmente pela Operação Lava Jato. A gravidade do momento exige equilíbrio; não combina com leviandade, nem com a radicalização fútil que tomou conta das redes sociais, nem, menos ainda, com o enviesamento flagrante que domina o noticiário da grande mídia.

 

 

O exercício que tenho procurado fazer (e que tem dado alguns frutos interessantes, como os relatados acima) é o de me colocar diante das notícias sempre com espírito crítico, tentando entender os fatos e as intenções por trás delas, sem me emocionar com os resultados e, sobretudo, deixando um espaço generoso para que a intuição ajude a antever o possível rumo dos acontecimentos.

 

 

Você não precisa acreditar nisso, nem concordar com isso. Mas, em todo caso, não convém deixar-se envenenar com a boataria infernal e com a avalanche de notícias plantadas pelas forças em confronto, para conquistar corações e mentes.

 

 

Exercer a cidadania com discrição e comedimento, manifestar opinião e protestar contra tudo o que conspire contra o normal desenvolvimento dos negócios, se possível apontando soluções e alternativas, é mais que direito; é dever do empresariado. Mas isso não se confunde com a busca de um protagonismo ruidoso e perigoso, que muitas vezes vejo ser defendido por empresários, com ardor juvenil.

 

 

 A luta pelo poder é cruel e sem limites. Quem não tem poder político – mas tem o que perder –, deve redobrar o cuidado antes de se meter em terreno que não conhece, manejando armas que não domina.

 

 

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Geraldo Vianna é advogado, consultor em Transportes, ex-presidente da NTC&Logística e Diretor da CNT.