Opinião econômica

Aprendi muito com o economista-filósofo Roberto de Oliveira Campos, particularmente quando tive a honra e a oportunidade de conviver com ele durante anos na Câmara dos Deputados. Sentávamos juntos e assistíamos aos mesmos discursos, alguns muito bons e sábios.

Frequentemente, diante de alguns incontroláveis colegas que exerciam uma oratória de alta visibilidade com os dois braços agitados tentando encontrar uma ideia, Roberto me surpreendia com a afirmação: “Delfim, acabo de demonstrar um teorema”. E sacava uma mordaz conclusão crítica contra incauto orador.

Um belo dia, um falante e conhecido, deputado pelo PDT, ensurdeceu o plenário com uma gritaria que entupiu os ouvidos dos colegas. A quantidade de sandices ditas no longo discurso com o ar de quem estava inventando o mundo, fez Roberto reagir com incontida indignação. Soltou de sopetão: “Delfim, construí um axioma, uma afirmação preliminar que deve ser aceita pela fé, sem exigir prova: a ignorância não tem limite inferior”. E completou, com a perversidade de sua imensa inteligência: “Com ele poderemos construir mundos maravilhosos”.

É uma pena que ele não possa mais verificar a riqueza e o poder do seu axioma.

Agora mesmo, estamos diante de duas questões que cobrem os extremos de uma longa escala.

A primeira é a enorme confusão estabelecida em torno do Acordo Ortográfico, na Comissão de Educação do Senado, pelo ilustre senador Cyro Miranda, do PSDB de Goiás. Para parecer “politicamente correto” e “ouvir todos os lados”, na solução do problema, criou-se um grupo de trabalho e convocou-se o ilustre e “esentrico” professor de português Ernani Pimentel, inventor de uma deplorável reforma ortográfica da qual se vê uma amostra acima.

A segunda é o evidente mau uso dos recursos dissipados na propaganda eleitoral “gratuita” (paga pela sociedade desapercebida) que em lugar de educar o cidadão, deseduca-o em matérias cuja boa compreensão é fundamental para o voto consequente. Exacerba o voluntarismo como solução para nossos graves problemas.

Não deixa de ser tragicômico assistir à indecente desonestidade intelectual de um dos lados, acompanhada pela indigente ausência de boas ideias do outro. Competem à altura, com a triste figura de uma nanica e retrógrada “verdadeira esquerda nacional”, que se classifica a si mesma “progressista” e “democrática”. Progressista porque sugere a repetição de experiências fracassadas. Democrática porque acredita ser portadora de uma visão privilegiada do mundo…

Economista, ex-deputado federal e ex-ministro da Fazenda, do Planejamento e da Agricultura

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