Uma aventura sul-americana

Belas paisagens, falta de infraestrutura, excesso de burocracia e má vontade dos governos dos países vizinhos: essa é a realidade das rotas que ligariam o Atlântico ao Pacífico, passando pela Bolívia

Há décadas existe um plano de consolidar uma rota unindo dois oceanos do continente sul-americano através da Bolívia. O traçado se tornou realidade no início de 2013, quando foi asfaltado o último trecho da estrada que liga Puerto Quijarro e Santa Cruz de La Sierra, obra financiada pelo BNDES. Durante oito dias, em setembro, uma expedição de 27 caminhonetes percorreu 2,7 mil quilômetros para verificar as condições de viagem. A caravana era formada por produtores rurais, empresários do ramo da logística e donos de concessionárias do Estado do Mato Grosso do Sul, representantes dos governos boliviano, paraguaio e chileno, além da assessora técnica da NTC & Logística, Sônia Rotondo, e do presidente do SETCEG (Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas e Logística no Estado de Goiás), Pedro Velasco, que também representava a Fenatac (Federação Interestadual das Empresas de Transporte de Carga).

O grupo saiu de Campo Grande, passou por Corumbá, pelas cidades bolivianas de Santa Cruz de La Sierra, Cochabamba e La Paz e pelas chilenas Arica e Iquique, onde existem dois portos subutilizados e com tarifas baixas. “Em viagem ate Corumbá, foi agradável cruzar parte do Pantanal, com muitas pontes e trechos rodoviários retos, longos. Com escasso acostamento, pode-se transitar com relativa segurança. Seguindo, sempre reto, o horizonte era no mesmo nível das arvores ressequidas, com bandos de pássaros em rasas poças d’água. Em seguida, fizemos a travessia sobre o rio Paraguai com suas águas lentas, aguardando as chuvas, para banhar a terra”, conta Sônia.

A chegada a Corumbá foi sob um calor abafado. Cidade de traços raros que margeia o rio Paraguai. A seguir o grupo ingressou em território boliviano, cruzando o Arroyo de Concepcion. A primeira experiência de muitas com a burocracia. “Começou a espera. Para um veículo ingressar por aquele ponto de fronteira, é exigida a documentação do mesmo. Caso esteja no em nome da pessoa jurídica, é necessário que o condutor tenha uma autorização expressa para dirigir o veiculo. Existe uma série de documentos que são exigidos para ingressar e transitar por território boliviano”, diz Sônia.

A caravana entra em território boliviano pela nova rodovia designada de Corredor Interoceânico. De Arroyo de Cocepcion a Santa Cruz da La Sierra são cerca de 700 quilômetros. “Talvez os mais longos que já percorri”, revela a viajante. A pavimentação da rodovia está em boas condições, mas a sinalização é praticamente inexistente. “Cruzando a estrada os animais saem de um lado para encontrar alimentos do outro. A falta de segurança á muito grande”, diz.


POSTOS-

A paisagem é bastante impressionante, com belas serras modeladas pela ação do vento e da chuva. A infraestrutura para os viajantes e motoristas, por outro lado, também é precária. “Tivemos que parar para abastecer num ‘posto’ que era o ponto de parada. A utilização de sanitários é impossível de descrever. Não há postos de abastecimento, muitos menos lojas de conveniência e demais serviços ao viajante. Não há nada nesse corredor ate Santa Cruz. Somente a indignação de para aqueles que se aventuram transitar por essa rodovia”, informa Sônia.

Outro problema sério é relativo ao abastecimento com óleo diesel. O governo boliviano subsidia o consumo de seu combustível nacional. “Um caminhão boliviano pagaria o diesel a cerca de US$ 0,50 por litro, enquanto que o veículo estrangeiro abasteceria pelo preço de US$ 1,40. Não são todos os postos que contam com a cota para estrangeiro, pois, para abastecer, é necessária a emissão de uma ‘fatura’ internacional. Mesmo encontrando um posto que tenha a autorização para vender para o estrangeiro isso não quer dizer que terá a litragem necessária”, resume.

Ao chegar a Santa Cruz de La Sierra, o visitante percebe o trânsito congestionado e orientado por um sistema de anéis. “Muitos veículos, inclusive táxis, têm o volante implantado no lado esquerdo, porque originalmente a mão de direção é pelo lado direito. Implantam-se também o banco de condução que pode ser cadeira fixada por cordas. Grande parte dos veículos o sistema de combustão é por GLP”, observa Sônia.

No domingo, dia 29 de setembro, o grupo voltava à estrada, com destino a Cochabamba. A falta de sinalização, os animais na pista e a ocorrência de muitas obras atrapalham a viagem. Assim, começava a subida para o topo da América do Sul. “Ingressamos nessa rodovia, sabendo dos riscos e dos problemas. Muitas curvas, grandes subidas e descidas infindáveis. Exige-se muito do veículo e do condutor. É uma rodovia que corta grandes extensões de floresta. A mudança de temperatura é brusca, e a chuva se fez presente em vários momentos. A estreita pista de rolamento não possui acostamento e há vários trechos com serviço de recuperação”, relata.

A caravana finalmente chega a Nossa Senhora La Paz, transitando pelo El Alto (4,1 mil metros de altitude). "A cidade foi construída entre montanhas e ao fundo vislumbra-se o vale. Com altos edifícios. A cabeça parece que vai explodir. Hora de ingerir altas doses de cafeína. Mascar folha de coca e ingerir o chá feito com elas”. Saindo de La Paz, os viajantes seguiram para Arica, no Chile. “El Alto, a cidade que tem a rodovia como marco divisor. Durante um bom percurso vai se encontrando o comercio à margem da rodovia. Olha-se para os lados e se tem a impressão de que as pessoas brotam da terra. De estatura baixa, com sua vestimenta colorida. Seguindo em frente, a aridez começa das a se torna presença permanente. Muito vento. O altiplano boliviano realmente é um lugar indescritível”, conta Sônia.

Muitos trechos da rodovia estão sendo refeitos. “Cruzamos com muitos caminhões carregados com containeres, madeira, grãos e outras tantas coisas. São veículos antigos com seus condutores mirando sempre para frente. Depois de muitas horas de frio, de vento, de secura e raro oxigênio, fomos deixando o território boliviano para ingressar em terras chilenas. A natureza decididamente tira o fôlego”, deslumbra-se. Em termos de infraestrutura, esse ponto de fronteira boliviana, não é diferente de Puerto Suarez, mas os vulcões, lagos e flamingos encantam os olhos.

De acordo com Sônia, os agentes da aduana foram bastante solícitos. ”Deparamos com os ônibus ingressando e a fila de pessoas caminhando uma atrás da outra para fazer a migração. Estava muito frio e o vento era avassalador. Todos, em fila indiana, crianças, velhos, mulheres. Havia também grande numero de caminhões fazendo os trâmites aduaneiros das cargas. Nenhum veículo de transportadora brasileira”. Há cerca de dez quilômetros à frente, começa a aduana chilena. A diferença de infraestrutura é marcante. “Em conversa com a responsável por aquele de fronteira fui informada que, a partir de 2014, os governos chileno e boliviano, convergiram para ter um único espaço, chamada de aduana integrada”, diz.

O corredor que liga Arica a Oruro é largamente utilizado por empresas bolivianas, sendo pouco comum encontrar veículos de outras nacionalidades. A exportação boliviana (de soja e outros grãos) é transportada para Arica e de lá segue para a África e demais países asiáticos. “Começamos a descer e subir a Costa Pacífico, pela Cordilheira. A estrada é pavimentada e há trechos em que a curva é um V. É necessário esperar o veículo que está subindo para depois descer, por que os dois juntos não passam”, observa Sônia.

A chegada a Arica foi à noite. No dia seguinte, o grupo seguiu para Iquique, por uma rodovia muito perigosa, que está sendo ampliada. “Chegamos à cidade, que fica no nível do mar, passando por Alto Hospicio (região acima). O porto de Iquique recebe a maior parte das cargas dos Tigres Asiáticos. Há um grande volume de caminhões de bandeira paraguaia. Não vimos caminhões brasileiros”, diz.


INTEGRAÇÃO-

Segundo Sônia, a rota para chegar a Iquique partindo de São Paulo, seria a seguinte: São Paulo, Campo Grande, Corumbá, Santa Cruz de La Sierra, Cochabamba, Oruro, Arica, Iquique. Em um total de aproximadamente, 3,7mil quilômetros. “Ocorre que para atravessar a Bolívia para chegar ao Chile, se faz necessário que o governo conceda o trânsito para a empresa brasileira. Situação prevista no Acordo sobre Transporte Internacional Terrestre (ATIT), do qual a Bolívia é signatária. Todavia, o governo boliviano ignora tal condição de concessão de trânsito. Dessa forma, a empresa brasileira não poderá alcançar os portos chilenos cruzando este país”.

Sônia destaca que, mais que uma saída para a costa do Pacifico, é preciso investir no processo de integração regional. “A dependência dos países sul-americanos entre si é inquestionável. A Cordilheira compõe os territórios dos países e não os isolam. A grande vitória sul-americana esta centrada no seu fluxo de comercio entre eles para terceiros países. Escoar pelo Pacifico não é uma necessidade só brasileira, mais de todos os países. Os produtos oriundos da Bolívia e do Paraguai necessitam alcançar não só o Pacífico, mas também o Atlântico”.

A falta de infraestrutura afeta a todos, aumentando os custos para as empresas dos países envolvidos. “As questões socioeconômicas dos países sul-americanos, guardadas as devidas proporções, são graves, e todos nós estamos perdendo. A chave para o nosso desenvolvimento está, principalmente, nos corredores interoceânicos, que viabilizariam a integração regional”, acredita Sônia.

Outra rota que poderia ser mais bem aproveitada, e que está prevista pela Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IRSA), vai de Iquique, segue para o sul da Bolívia, ingressando no Paraguai, até chegar a Mariscal José Felix Estigarriva, ingressando no Brasil por Porto Murtinho. “Mesmo nessa alternativa ainda tropeçaríamos na vontade do governo boliviano para conceder o trânsito por seu território. Nessa alternativa, em torno de 300 quilômetros ainda precisam ser pavimentados e há necessidade de construir a ponte sobre o rio Paraguai”.
 

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