Refinaria a plena carga teria efeito sobre o PIB

Resultado do estudo realizado por pesquisadores da UFRRJ e da Coppe/UFRJ vai de encontro a atual adotada pela Petrobras para seu parque de refino — Foto: Divulgação

Simulação mostra impacto de mais de R$ 3,6 bi no índice e redução de custos para vários segmentos

A operação a plena capacidade das 13 refinarias da Petrobras, e não no nível médio de 75% registrado no primeiro semestre do ano, teria impacto positivo superior a R$ 3,6 bilhões sobre o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, além de pressionar para baixo a inflação medida nos setores de transportes e alimentos e bebidas, entre outros. Desenvolvida por professores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe/UFRJ), a simulação teve como ponto de partida os dados da edição deste ano do Balanço Energético Nacional, publicado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

As conclusões do estudo vão de encontro à política adotada pela Petrobras de privilegiar a exportação de petróleo bruto e importar derivados de maior valor agregado. “Nesse contexto, me parece que é um erro maior ainda vender refinarias”, argumenta o professor do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ, Amaro Pereira, um dos autores da simulação. Na quinta-feira, o Supremo Tribunal Federal (STF) liberou a venda de refinarias da Petrobras à iniciativa privada sem que haja a necessidade de licitação ou autorização do Congresso Nacional.

Pelos cálculos de Pereira e do economista Joilson Cabral, da URFRRJ, a produção de um volume maior de derivados pela Petrobras, a um custo mais baixo que o dos importados, diminuiria em 2,04% a inflação setorial de transportes. No segmento de alimentos e bebidas, essa queda seria de 0,54%. Já a inflação medida para o ramo de produtos agropecuários seria reduzida em 0,62%. A simulação leva em conta uma redução da capacidade ociosa de 25% registrada no primeiro semestre de 2020 para um patamar de 5%. Isso significaria trabalhar com 95% da capacidade de refino da Petrobras.

Os números do balanço publicado pela EPE foram usados para montar uma “refinaria representativa”, virtual, capaz de refletir as características e a capacidade de produção de todas as unidades de refino da Petrobras.

O volume de derivados que seria produzido alimentou um modelo matemático calcado na matriz insumo-produto de 2017 – um retrato da estrutura produtiva brasileira utilizado no cálculo das Contas Nacionais pelo IBGE. “A matriz insumo-produto capta justamente essa interdependência dos setores”, resume Cabral. No ano passado, as de petróleo pela companhia somaram US$ 24 bilhões, enquanto as importações de derivados totalizaram US$ 14 bilhões.

A Petrobras vem operando seu parque de refino com taxas de ociosidade crescentes. Se na primeira metade da década de 2010 a companhia operava suas refinarias muitas vezes próximas de suas respectivas capacidades plenas, em meio ao aquecimento do mercado, nos últimos anos a estatal vem reduzindo o fator de uso de suas unidades para a casa dos 70%.

O ponto de inflexão na gestão do parque de refino se deu na administração do então presidente Pedro Parente, dentro de uma estratégia de negócio que passou a priorizar mais a rentabilidade das operações do que os volumes de produção. Desde então, a Petrobras passou a buscar um “ponto ótimo” de operação que poucas vezes tem ultrapassado a marca dos 80% da capacidade.

A petroleira alega que, a partir desse “ponto ótimo”, o refino começa a gerar derivados de menor valor agregado e baixa rentabilidade em mercados muitas vezes distantes das refinarias – o que aumenta o custo de transporte dos produtos e, consequentemente, suas rentabilidades.

O sócio-diretor da consultoria Leggio, Marcus D’Elia, explica que, dentro da estrutura atual do parque de refino da Petrobras, operar a plena capacidade significa produzir derivados de frações mais pesadas, como asfalto e óleo combustível. A expectativa, segundo ele, contudo, é que, com a abertura do mercado, os novos operadores invistam na adaptação de suas refinarias, para elevarem a produção dos derivados mais nobres e, assim, otimizem mais a produção.

“Esperamos que algumas melhorias no refino venham a permitir mudanças nos cortes das refinarias. Os novos refinadores terão interesse em adequar o mix de produção, aumentando destinação do petróleo para produzir derivados de maior valor. A expectativa é que eles venham a atingir patamares de uso da capacidade acima de 90%, de forma a rentabilizar os investimentos. A Petrobras hoje não tem interesse em fazer esses investimentos”, afirmou D’Elia.

A diretora de refino e gás natural da Petrobras, Anelise Lara, explica por sua vez que hoje o parque de refino é gerido pela estatal, responsável por 98% da capacidade instalada, de forma integrada. Ela afirma que as refinarias não são independentes e assumem cotas de produção de determinados derivados, dentro de um balanço geral que reflete a posição monopolista da petroleira e o seu papel histórico de garantidora do suprimento ao mercado nacional. Essa visão centralizada, no entanto, tende a dar lugar a operadores independentes que farão a gestão de suas refinarias dentro de outra lógica.

“Temos refinarias onde usamos 70%, outras 65%, 75%, 80% da capacidade, dependendo da necessidade de produção de derivados. Mas quem compra uma refinaria e faz um investimento bilionário não vai ficar gerindo a sua única refinaria com fator de utilização de 60%, 70%. Ele vai querer otimizar e aumentar o máximo de produção que ele puder. E isso significa avançar sobre os mercados de outros [refinadores]. Não tenho dúvidas de que a competição vai existir e vamos ver muito provavelmente refinarias sendo utilizadas a exaustão e produzindo derivados, eventualmente, até para outros países”, afirmou a executiva, durante evento on-line em agosto.

Fonte: Valor Econômico

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