Os desafios das empresas familiares no Brasil

Segundo o IBGE de 2018, mais de 90% das empresas brasileiras são familiares, porém a expressão “empresa familiar” ainda é utilizada de maneira pejorativa, marcando a empresa como algo sem organização, profissionalismo e com muitos conflitos de interesse. De acordo com um estudo da PWC, network de empresas independentes que estão presente em 158 territórios, apenas 12% das empresas familiares chegam à terceira geração e 1% à quinta geração. Os números são alarmantes e confirmam a ideia de que muitas empresas não se preparam de forma correta e profissional para realizar uma sucessão saudável.

Visando debater um pouco sobre o tema convidei meus colegas Ana Jarrouge, Guilherme Juliani e Joyce Bessa para compartilharem suas opiniões e experiências nas empresas familiares que fazem ou já fizeram parte.

— Ana Jarrouge, presidente executiva do Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região – SETCESP

“Empresas familiares são uma realidade não só no Brasil, mas em todo mundo. Iniciei na AJOFER, empresa fundada por meu pai e meu vô, aos 16 anos por “ordem” do meu pai. Tive a oportunidade de passar por todos os departamentos, desde as atividades mais simples até mais complexas, o que me permitiu ter bagagem muito rica sobre o dia a dia de uma transportadora. Com o tempo, e somente após formada, assumi cargo de gerência, onde terminei minha jornada no final de 2014, quando era responsável por toda área administrativa, jurídica e de recursos humanos. Confesso que foram anos incríveis, aprendi muito, mas meu pai é jovem e não havia espaço ainda para um projeto de sucessão na empresa, momento no qual decidi sair e ter experiências novas, o que foi fundamental para minha carreira. Passei então a ser advogada contratada da empresa da família, numa relação diferente, mas que me permitiu ter contato com outras empresas e outros negócios, abrindo minha mente para um novo mundo, o qual acabou me credenciando a ocupar cargo importante que ocupo hoje no SETCESP.

No nosso país, é um tremendo desafio manter a harmonia em uma empresa que possui gestão familiar. Nosso ambiente de negócios exige preparação e dedicação intensas, além do fato de que encaramos cenário complicado em termos de carga tributária, burocracia, regulação e falta de fiscalização. Mas há benefícios também na condução das empresas por famílias, quando há harmonia entre os membros, as decisões tendem a ser rápidas, focadas e o crescimento dos negócios tende a ser mais efetivo em razão da dedicação total dos proprietários gestores.

Por tudo que já vi no mercado, tenho convicção que deve haver ajuda profissional durante o processo de sucessão da empresa, pois são raríssimos os casos em que as organizações por si só possuem maturidade para estruturar um projeto sucessório. Acredito que isto possa até acontecer no futuro, tendo em vista que é assunto muito discutido e que jovens empresários estão tomando mais consciência a respeito, assim esperamos.”

— Guilherme Juliani, CEO da Flash Courier

“O meu caso na Flash Courier é muito mais simples que a grande maioria das empresas. Atualmente apenas eu e meu pai atuamos na organização, mas para que a sucessão acontecesse, tivemos consultoria para nos ajudar a desenhar e esclarecer os caminhos. Há quase 8 anos atrás formalizamos todos os contratos sociais, acordos acionistas e outros fatores para reger até mesmo o futuro ingresso das minhas filhas (que hoje tem 10 anos) na empresa. Ou seja, tem sido um processo totalmente profissional, visando sempre a melhora de desempenho da empresa.

Os pontos positivos das empresas familiares são baseados na confiança dos membros. Pode-se fazer planos de carreira que envolvam estudos no exterior, inclusive, pois este é um investimento para o futuro do grupo, além disso, acredito que quando está tudo acordado, a distribuição de capital não se torna um problema, pois está tudo em família. Por outro lado, os conflitos são difíceis de se resolverem, existe sempre uma “disputa de poder” mesmo que velada e escondida, e o problema do ego.

Conhecemos diversos casos no TRC de empresas que foram a ruína por brigas de família, por isso, acredito que deve haver uma orientação e uma gestão profissional para que esses conflitos não interfiram no bem estar e desenvolvimento da empresa.”

— Joyce Bessa, diretora administrativa financeira da TransJordano e Vice-coordenadora nacional da COMJOVEM

“Estou na TranJordano há 20 anos, ou seja, desde a sua criação. Cresci com o negócio, mas não apenas como herdeira. Eu e meu irmão, Jordano Bessa, que também atua na empresa, estudamos, nos profissionalizamos, fazemos o que gostamos e fomos preparados. Eu sempre digo que além do estudo você tem que ter um pouco de paixão. É isso que move o seu negócio, competência e paixão.

Os principais pontos positivos nas empresas familiares para mim, são a paixão pelo negócio da família e o compromisso de levar o legado adiante, esses devem ser os pilares de uma empresa familiar. Porém, quando os processos não são feitos de forma correta e profissional, existem problemas significativos, como a dependência, vulnerabilidade, pontos concorrentes entre família e negócios e dificuldade de escutar o outro sem julgamento.

O processo de sucessão deve ser feito de maneira totalmente planejada, o empresário patriarca precisa entender e planejar como ele realizará esse plano sucessório, e isso também deve ser feito de maneira muito profissional para não abalar as estruturas do negócio.”

Voltando para minha visão e experiência com a Ouro Negro, percebo que empresas familiares têm como principais características o ambiente agradável, espírito de equipe, rapidez na tomada de decisão e simplicidade nas tratativas. Porém, quando os papéis não estão bem definidos, de forma clara e de acordo com o ambiente, seja ele familiar, pessoal e profissional, problemas podem surgir, como o conflito entre os interesses da família e os da empresa, falta de disciplina com relação à destinação dos lucros, tempo maior de resposta às mudanças de mercado, a falta de procedimentos claros de avaliação de desempenho, conflito do fundador, rivalidade entre pai e filho, ou entre irmãos, estes são alguns desafios que podem gerar a ruínas destas duas instituições.

Nesse tipo de negócio, é importante que os próprios membros entendam a necessidade de se profissionalizarem e se tornarem aptos para realizar uma gestão competente. Aqui na nossa empresa entedemos que em alguns momentos somos herdeiras, outros momentos executivas no cargo que estamos e em outros momentos somos família. Dizer que este papeis nunca se misturam é utopia, mas sempre estamos focadas em nos adaptar e estar no papel de acordo com a instituiçao que estamos.

Não acredito que exista receita pronta para uma sucessão. Tanto no TRC quanto em outras áreas, a sucessão deve ser customizada de acordo com as características da empresa e dos envolvidos. Acredito que é fundamental ter um apoio de um profissional especializado, para poder intermediar esta passagem de bastão. Outro fator que se faz necessário é a governança corporativa, É importante também ter um conselho de família para discutir e solucionar atritos, visando sempre os interesses da família e como isso se adequa à organização. Gerir uma empresa não é algo fácil e acredito que em muitos casos, falta profissionalismo na gestão de empresas, causando ruínas tanto na família quanto na organização.

Por fim, gostaria de agradecer a Joyce, Ana e Guilherme por compartilharem suas histórias e opiniões conosco nesse artigo. A lição que fica é a importância de mantermos o profissionalismo nos processos, sejam eles operacionais, administrativos ou sucessórios, os conflitos sempre existirão, mas se forem tratados da forma correta e profissional, serão menos danosos para a companhia e para o bem estar da família.

*Priscila Zanette, Diretora da Ouro Negro e Vice-coordenadora do Núcleo da COMJOVEM do Sul de Santa Catarina

Fonte: Assessoria

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