Por que os jovens não querem ser motorista de caminhão?

Foto: ABC Cargas/Divulgação

Fatores como salário baixo, falta de qualidade de vida e ficar muito tempo longe da família afastam a nova geração dessa profissão

O interesse pela profissão de motorista de caminhão vem despencando no Brasil. Atualmente, 60% dos profissionais do setor têm mais de 50 anos. O dado é da Associação Nacional do Transporte & Logística (). Como não há renovação na categoria, em breve haverá falta de motorista de caminhão no mercado.

Presidente da NTC, Francisco Pelucio diz que até recentemente era comum o filho do caminhoneiro querer seguir a profissão do pai. Contudo, ele afirma que isso mudou. “Hoje, isso não existe mais.”

Fatores como baixos salários, falta de qualidade de vida e distância da família afastam os jovens da profissão. Pelucio lembra que o alto índice de roubo de cargas também assusta. “O número (de casos) vem diminuindo, mas ainda preocupa.”

Em breve a NTC se reunirá com empresas do setor. O objetivo é buscar formas de atrair novos interessados na profissão de motorista de caminhão. Enquanto isso, algumas transportadoras vêm  buscando formas próprias para tentar fisgar novos motoristas.

Soluções caseiras

É o que vem fazendo, por exemplo, a ABC Cargas, que transporta caminhões dentro do Brasil e para países da América Latina, Danilo Guedes conta que a estratégia é contratar pessoas para começarem em outros setores da empresa e, em um segundo momento, atraí-las para o volante. “Damos oportunidade para que esses jovens possam ir para a estrada sem experiência. Geralmente começam a acompanhar a viagem com um padrinho que ensina na prática”, explica.

Ildo Alves, 29 anos é motorista da ABC Cargas. Um dos poucos jovens interessados na profissão

De acordo com ele, o aspirante a motorista fica pelo menos quatro meses vendo o mais velho dirigir. Inclusive, a empresa oferece auxilio para que esses profissionais tirem a carteira de habilitação E.

Guedes admite que o processo seletivo para a contratação de motoristas é bastante rigoroso. “Muitos jovens que se candidatam não têm experiência e vão ficando pelo caminho por causa de problemas sócio-econômicos, álcool ou droga”, diz.

Para o executivo, outra dificuldade é que a nova geração procura mais atividades administrativas. “Além disso, o motorista precisa abrir mão de muitas coisas, inclusive da família”, comenta.

Na ABC Cargas, a média de idade dos motoristas é de 45 anos; E, segundo informações da empresa, apenas 15% têm até 30 anos.

Plano de carreira

Na Transportadora Scapini, a idade média dos profissionais do volante é de 40 anos. A empresa também sente bastante dificuldade para atrair a nova geração.

“Está difícil porque a nova geração tem interesse em novos segmentos em tecnologia que se mostram mais interessantes”, diz Lucas Scapini, proprietário da empresa.

Ele conta que, para incentivar os mais novos, a empresa investe em pano de carreira e uma série de bonificações. “À medida que eles vão evoluindo, passam a conduzir caminhões maiores. E o salário aumenta também.”

Lucas Scapini : plano de carreira com bonificações para atrair os novos motoristas

Se o de motorista contratado por empresa já não é atrativo para os jovens, o de autônomo é menos ainda. Presidente da Associação dos Condutores de Veículos Automotores (ABRAVA), Wallace Landin, conhecido como Chorão, diz que a idade média dos autônomos é de mais de 35 anos.

Ele concorda que a nova geração não mostra interesse pela profissão. “O sonho de todo motorista contratado é um dia comprar seu próprio caminhão e ser independente. Mas os mais novos não têm essa vontade”, diz.

De geração para geração

De acordo com Chorão, a profissão sempre passou de geração para geração, mas o que ocorre hoje é que os jovens observam todas as dificuldades que seus pais ou avós passam e não sentem interesse em ter a mesma vida. “Eles sabem desde novo que é difícil manter um caminhão com custos altos de diesel e pneus, por exemplo. E, por outro lado, fretes cada vez mais desvalorizados”, diz.

Segundo Chorão, uma forma de atrair as novas gerações seria investir na profissionalização da categoria. Ainda de acordo com ele, a Abrava está planejando montar com instituições de ensino um curso à distância para tecnólogo em logística e transporte.

Desse modo, na grade constariam conteúdos como legislação, , produtos perigosos e até saúde e bem-estar. “Com mais conhecimento, esses motoristas teriam mais condições de negociar um bom frete e de administrar melhor seu caminhão. E isso ajudaria a profissão a não entrar em extinção”, diz.

De acordo com ele, um motorista autônomo pode faturar até R$ 30 mil reais por mês, contudo 70% dessa receita é para despesas do caminhão que estão cada dia mais altas. “Ele passa o mês inteiro fora de casa para lucrar algo em torno de R$ 5 a R$ 6 mil.”

Fonte: Estadão

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