Possibilidades para o Brasil

No futuro, a terá de reorganizar a sua produtividade, para conseguir alcançar os objetivos de interesse da sociedade

As pessoas já perceberam que a economia vai mudar quando o pico da pandemia da covid-19 passar. Inovações tecnológicas que teriam sido adotadas gradualmente tiveram seu uso acelerado drasticamente. Partes da economia se tornaram totalmente digitais ou com importante interface digital. Setores como , parte da chamada economia simbólica, praticamente completaram a transição, inclusive usando a inteligência artificial para fazer decisões básicas do negócio, como conceder empréstimos. Em setores com componente material importante, a transformação foi na forma de venda, que foi digitalizada. Os serviços públicos também vão nessa direção, apesar das filas nas agências da Caixa Econômica. Da segurança pública, com câmeras, informações de celulares e algoritmos dedutivos, à saúde pública, com consulta digital, e na educação online, viveu-se em dois meses um salto também no papel do funcionalismo de linha de frente que teria demorado uma década em condições normais. Tudo isso terá impacto no emprego público e privado.

O que há de comum nessas mudanças? Um salto de produtividade que se revelou quando foi necessário. E qual a consequência? A economia terá de se reorganizar para continuar a favorecer esse ganho de produtividade e para usá-lo para alcançar objetivos de interesse da sociedade.

Uma grande intuição econômica do século 19 foi que um ganho de produtividade que não é repartido numa economia capitalista leva a uma concentração da riqueza e uma deficiência na demanda que não é sustentável. O incentivo individual das empresas investirem para serem cada vez mais produtivas e vencer a concorrência pode ser agregado de forma insustentável.

Então, poderemos ter o bom problema de como distribuir os frutos da maior produtividade. Essa foi a história do Ocidente nos últimos 80 anos. É a maior produtividade na frente que permitirá ao governo aumentar dívida pública ou a base monetária sem gerar só inflação ou fuga de capitais – as novas teorias não mudam isso. Mas a maior produtividade pode não se realizar, se tentarmos apenas voltar ao mundo pré-covid nos endividando, sem encontrarmos formas de canalizar a iniciativa das pessoas de forma produtiva. O risco poderia ser uma sociedade empobrecida com uma casta dos que têm seu salário garantido pelo Estado e todo o resto lutando contra a maré.

Para o Brasil, agora, isso significa que temos de facilitar o uso de novas tecnologias e usar seus frutos para financiar inúmeras atividades que sabemos serem essenciais e indispensáveis, como o saneamento universal, para o País alcançar o nível de desenvolvimento que todos desejam. É estimular a formação e emprego numa sociedade do conhecimento, com serviços de alta produtividade, e não sermos meros importadores de inovações. É gerir os riscos de a nossa extraordinária agricultura vir a enfrentar um efeito dominó, se o mercado mundial de carnes encolher por preocupações ambientais ou pelo sucesso de algum sucedâneo de laboratório, já que grande parte da exportação de grãos é para alimentar animais. A integração lavoura-pecuária bastará? Mais soja no biodiesel, ainda que a eletrificação do transporte em 20 anos possa alterar esse cálculo?

Vamos pensar em como aproveitar as mudanças nas cadeias de produção global que virão pelo desejo de segurança trazido pela covid-19? Não para aumentar o protecionismo, mas para nos posicionar com um provedor seguro. É entrar numa arena competitiva, mas com oportunidades de criar empregos para uma nova geração de brasileiros com mais educação e empreendedores. O setor de insumos e equipamentos de saúde pode ser um começo, quem sabe revitalizando a nossa farmacêutica. Há muitas opções e o setor privado precisa de tranquilidade e orientação.

A tecnologia pode abrir as portas para uma vida melhor, mas isso não cairá do céu – há que se criar os incentivos para sua adoção e as formas de transformar em oportunidade e justiça o impacto nas pessoas cuja produtividade for ficando para trás daquela dos “robots” físicos ou em algoritmos. Há muitos anos o popular autor Yuval Harari observou que a agricultura permitiu a humanidade dar um salto para frente, mas o impacto em alguns aspectos da qualidade de vida da maioria da população talvez tenha sido negativo em relação à vida anterior como caçadores. Isso pode se repetir, se o mundo não pensar em um novo pacto social, que não sabemos ainda como será. Pegar esse desafio, ter coragem para ocupar novo espaço no mundo e incluir toda nossa população nessa melhora tem de ser nossa ambição. Sabendo que exigirá muito trabalho e imaginação, além de coordenação entre governo, trabalhadores, empresários, ciência e finanças.

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