Indústria tem queda histórica e fecha abril com tombo de 18,8%

Guilherme Loureiro: “Maio deve mostrar recuperação marginal; junho não deve registrar retorno abrupto; a partir de julho podemos ver uma atividade mais forte” — Foto: Nilani Goettems/Valor

Setor viveu em abril seu pior momento na história por causa da pandemia de covid-19

A indústria brasileira viveu em abril seu pior momento na história por causa da pandemia de covid-19. Com as medidas de isolamento social, o setor fechou fábricas e reduziu jornadas de trabalho. O resultado foi a queda recorde de 18,8% na produção, na comparação com março, mês em que já havia recuado 9% frente a fevereiro, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Analistas afirmam que abril marcou o fundo do poço da atividade. Em maio, indicadores como a confiança empresarial, o lançamento de produtos, o licenciamento de veículos e o tráfego nas apontam que o recuo não se aprofundou. O cenário, contudo, é de incerteza.

Em abril, a queda da indústria atingiu 22 dos 26 ramos pesquisados pelo IBGE. Em 15 deles, a retração foi recorde. A produção de veículos, reboques e carrocerias – o pior desempenho entre os segmentos – recuou 88,5%. A produção de caixões, remédios, alimentos e produtos de limpeza aumentou. “São os mesmos segmentos que cresceram em março por causa da pandemia”, observou André Macedo, gerente da Indústria do IBGE.

As perspectivas à frente, afirma o economista Rodrigo Nishida, da LCA Consultores, são “nebulosas” porque a evolução da covid-19 no Brasil é mais intensa e duradoura do que o esperado inicialmente, o que lança dúvida sobre o ritmo de recuperação da atividade. A consultoria estima, de forma preliminar, que a produção industrial pode crescer em 6,8% em maio, sobre abril.

Na comparação com o mesmo período do ano passado, contudo, a queda ainda deve ser forte, de 21,9%, um pouco menor que o recuo de 27,7% de abril, o maior da série histórica do dado, iniciada em 2002. O cenário político conturbado contribui para aumentar a incerteza e o setor externo tampouco deve ajudar, dada a profunda recessão em todo o mundo, diz ele.

Abril deve marcar o piso da atividade econômica e espera-se números melhores no restante do trimestre, embora em um nível baixo, afirma Guilherme Loureiro economista-chefe da Trafalgar Investimentos. “Maio deve mostrar uma recuperação muito marginal. Junho não deve registrar um retorno abrupto. A partir de julho podemos ver uma atividade mais forte”.

Números divulgados por outros países que entraram antes na pandemia apontam que os chamados indicadores de alta frequência têm tido queda bem mais pronunciada que medidas agregadas. “Esse fator é também parte importante da nossa estimativa de PIB para o ano, de queda de 4%”, afirma. A mediana das projeções do boletim Focus, do Banco Central, é de queda de 6,25%.

O cenário-base da Trafalgar é que na segunda metade do ano haverá uma recuperação rápida sobre uma base muito deprimida, com crescimento de 4% e de 3% no terceiro e quarto trimestre, respectivamente. Em 2021, a aposta é que ao PIB cresça 4,5%. A voltaria ao patamar pré-pandemia em meados de 2021. Um risco é se a flexibilização da quarentena elevar os casos de covid-19 a ponto de haver um retorno a medidas mais rígidas de isolamento social. “Não é nosso cenário-base, mas é um risco”, diz.

Entre os indicadores já disponíveis sobre maio, o Índice de Confiança Empresarial (ICE), da FGV – que agrega construção, indústria, serviços e -, subiu 9,8 pontos, depois de cair históricos 33,8 pontos em abril. O nível, contudo, continua bem baixo, em 65,5 pontos. No Indicador de Incerteza da Economia, a alta de 95,4 pontos no bimestre março-abril foi amenizada por uma queda de 20,2 em maio, para 190,3 pontos. Parciais das concessionárias de estradas mostram que a queda de quase 30% no tráfego de veículos leves e pesados entre o fim de abril e os primeiros dias de maio, arrefeceu para cerca de 20% na última semana do mês passado. O Índice Gerentes de Compras (PMI, na sigla em inglês) da indústria brasileira subiu 2,3 pontos, para 38,3, um nível ainda historicamente baixo. O índice GS1 de atividade industrial, da Associação Brasileira de Automação, cresceu 29,6% em maio, sobre abril, quando caiu 27,4%, na série com ajuste sazonal. No segundo mês consecutivo com a maior parte das concessionárias fechadas os novos licenciamentos subiram 10,4% sobre abril. Mas em relação ao mesmo período de 2019 houve queda de 73%.

Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter, relata que, no início de maio, o sentimento era de muito pessimismo, mas ao longo do mês alguns indicadores mostraram melhora relativa. A retomada, contudo, é heterogênea e muito gradual. “Indústria e construção civil podem mostrar números menos negativos em maio, mas os serviços prestados às famílias vão demorar mais a se reerguer”. Ela considera que a reabertura da atividade em locais como São Paulo e Rio aumenta a expectativa quanto a uma continuidade da recuperação gradual que se vê até aqui, mas pondera que é importante acompanhar os dados da pandemia. “As curvas de contaminação ainda não caíram. Talvez esse seja o grande fator de risco para uma retomada mais robusta”, diz ela, que segue prevendo queda de 11% no PIB do segundo trimestre sobre o primeiro. “Vamos esperar para ver mais dados”.

A XP Investimentos também não vai revisar neste momento a estimativa para o PIB do segundo trimestre, de queda de 13,7% ante o primeiro. “Os setores de comércio e serviços devem ser os mais prejudicados pela pandemia. Vamos esperar para ver esses números”, afirma. A XP estima queda de 6% para o PIB do ano. Para a economista Lisandra Barbero espera uma ligeira expansão da indústria em maio na comparação com abril. “Os índices de confiança e PMI apontam para isso.”

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