É hora de decisão política para ter acordo UE-Mercosul, afirma chanceler italiano

Chegou a hora de uma decisão sobre o tratado de livre União Europeia-Mercosul, sem deixar que interesses particulares de setores específicos ditem o fechamento ou não de um acordo, disse o ministro das Relações Exteriores, Angelino Alfano, em entrevista ao Valor.A expectativa dos dois lados é anunciar um “pré-acordo” nas próximas semanas. Avanços em uma rodada decisiva de negociações na semana que vem, em Assunção, são tidos como fundamentos para concluir de forma bem-sucedida o processo que se arrasta há quase duas décadas.

Para o chanceler italiano, em um estágio tão avançado das negociações, mais importante do que esmiuçar detalhes técnicos é dar uma firme orientação de governo. “O sucesso depende de concessões comuns e recíprocas”, afirmou Alfano, que esteve ontem em Brasília e segue hoje para reuniões no Rio, mas frisando em seguida: “Chegou a hora de a política pegar as coisas em suas próprias mãos e favorecer o acordo”.”Não é admissível que setores específicos, com seus interesses particulares, obstruam a conquista de um acordo geral, do qual todos nos beneficiaremos nos próximos anos”, acrescentou o ministro, que foi recebido em audiência pelo presidente Michel Temer, no Palácio do Planalto. “Precisamos de coragem”.

“Questionado se não é justamente a postura excessivamente protecionista do agronegócio europeu que tem bloqueado concessões na reta final para um acordo, Alfano respondeu: “Mercosul e União Europeia são organizações que incluem dois grupos de países; alguns deles, como no caso da Europa, têm economias muito diversificadas e multissetoriais. Portanto, não é fácil elaborar ofertas. Nos últimos dois anos, percebemos que, diante da postura protecionista de outras regiões do mundo, é bom aproximar nossos sistemas econômicos, que, cabe lembrar, são baseados em valores comuns.

Isso pode parecer pouca coisa. Mas, muito pelo contrário, esse é um dos pilares sobre o qual temos que construir uma relação compartilhada mais sólida.”Alfano lembrou que a Itália tem sido uma das grandes incentivadoras do acordo dentro da UE. Mesmo com o discurso favorável do chanceler, porém, existem focos de resistências dentro de seu próprio governo. O ministro de Políticas Agrícolas, Maurizio Manzata, disse nesta semana em Roma que o tratado pode ser “insatisfatório” para produtores do ramo “agroalimentar” italiano. “

Acredito que deva se avaliar a possibilidade de colocar o veto”, afirmou Manzata, segundo relatos da imprensa europeia.Alfano disse confiar na “recuperação e na liberalização” da brasileira. No biênio 2016-2017, a Itália fez investimentos diretos superiores a US$ 4 bilhões no Brasil – foi o oitavo maior investidor estrangeiro. “Independentemente das contingências dos ciclos econômicos, o Brasil é a primeira do continente, com excelências extraordinárias no setor industrial e com mercado de mais de 200 milhões de pessoas.

“O chanceler não quis responder nenhuma pergunta sobre a política interna italiana, que tem eleições legislativas, no início de março. Há crescimento de partidos extremistas, à esquerda e à direita, além de iminentes dificuldades para se formar uma coalizão para o novo governo.Quanto à extradição do italiano Cesare Battisti, preferiu não polemizar: “A mudança no clima político de Brasília é palpável e fundamental. Em 2011, a política impediu a entrega. Agora, ao contrário, o governo brasileiro me parece estar unido a respeito de uma solução favorável à Justiça italiana.

Tive confirmação disso no último encontro com o meu homólogo [Aloysio] Nunes, em novembro, em Roma. Posto isso, devemos lembrar que a Itália e o Brasil são duas democracias em que o respeito pela autonomia do Judiciário é fundamental. Aguardo confiante a decisão do Supremo Tribunal Federal”. 

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