Argentina compra US$ 2,7 bilhões a menos do Brasil

Fonte: Jornal do Comércio
Argentina

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Produtos manufaturados, com maior valor agregado, são a maior parte dos itens comprados do Brasil /JUAN MABROMATA/AFP/JC Thiago Copetti A crise que afetou duramente a Argentina em 2018 não poderia passar sem deixar rastros no Brasil, já que o país vizinho é um dos nossos maiores parceiros comerciais – e o principal na América do Sul.

 

Entre 2017 e 2018, segundo o extinto Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic), houve queda de 15,14% nas exportações brasileiras para os hermanos. Foram cerca de US$ 2,7 bilhões a menos em vendas. As exportações, que vinham em um crescente nos últimos três anos, retrocederam de US$ 17,62 bilhões, em 2017, para US$ 14,9 bilhões em 2018.

 

Com a economia do Brasil mais aquecida e o peso desvalorizado, as importações brasileiras tiveram alta de 17%, alcançando US$ 11,05 bilhões (US$ 1,65 bilhão extra em relação a 2017), o que levou o superávit com o país vizinho a cair de US$ 8,18 bilhões para US$ 3,9 bilhões. No setor automotivo e de máquinas agrícolas, a desaceleração nos embarques brasileiros para a Argentina ocorreu de forma expressiva e deve continuar.

 

Ao longo de 2018, a queda nas exportações de veículos para o país vizinho alcançou diferentes segmentos. Houve retração nas vendas de veículos de passageiros (-19,8%), de cargas (-40,5%) e de tratores (-29,9%) – este com parte da produção no Rio Grande do Sul. Os dados do governo federal mostram, ainda, queda em setores de consumo pessoal, como de calçados, com retração de 5,2%. O baque nos negócios por aqui só não foi sentido com mais força porque o Brasil, ao contrário da Argentina, vive um momento de suave retomada e de retorno às compras.

 

E vale lembrar que, ao contrário da China, por exemplo, a Argentina compra do Brasil principalmente produtos manufaturados, com maior valor agregado. Presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas no Rio Grande do Sul (Simers), Claudio Bier ressalta que boa parte da redução nos negócios se deve, também, à decisão das próprias empresas brasileiras de não correr riscos maiores de inadimplência. “Com mais esta crise argentina, volta o medo de muitos empresários de vender e levar calote. Por isso a elevada queda nas vendas, que se soma, também, à maior dificuldade de compra por parte dos importadores de lá”, pondera Bier.

 

Para o economista da Farsul, Antônio da Luz, o comércio bilateral é afetado especialmente pela desvalorização cambial do peso. Luz avalia que, com a expressiva queda na cotação do peso ante o dólar, a moeda argentina vale muito pouco atualmente. Hoje, são necessários cerca de 40 pesos para comprar U$S 1. “Para eles, os produtos brasileiros, em geral, estão custando mais caro do que antes da crise.

 

Importar de qualquer país, e não apenas de nós, se tornou mais caro para o argentino”, explica o economista. Luz explica, ainda, que, com os atuais juros elevados da Argentina, o empresário que quiser importar e usar parte dos recursos do sistema financeiro e crédito para importação terá de arcar com uma taxa próxima de 60% ao ano, o que limita muito as grandes aquisições.

 

Por outro lado, diz o economista, essa desvalorização torna o produto argentino mais barato, apesar de a inflação no país estar em alta. “Isso dá, em parte, mais competitividade no produto argentino, tal como vinho, trigo, leite, arroz, produtos que são da natureza exportadora deles. Então, exportar, para eles, está um pouco mais fácil”, explica Luz.

 

Segundo o secretário executivo do Sindicato das Indústrias de Laticínios e Produtos Derivados, Darlan Palharini, a elevação no valor do leite em pó nas cotações internacionais – de quase 8% no início deste ano – é um risco para o setor brasileiro. “Na venda do leite líquido propriamente dito, não há maiores problemas, porque a Argentina consome quase tudo o que produz.

 

O perigo está no leite em pó”, avalia Palharini. Com poucos hermanos, hotéis do Litoral Norte reduzem preços Presença frequente nas praias gaúchas, os argentinos reduziram significativamente as viagens ao litoral do Rio Grande do Sul no veraneio 2018/2019. A presidente do Sindicato dos Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares do Litoral Norte, Ivone Ferraz, calcula que a queda no número de hermanos chega a 90% na região.

 

De acordo com a empresária, em dezembro, começaram a ocorrer muitas desistências por parte de hermanos que já haviam feito reserva, e a rede hoteleira baixou os preços para garantir a ocupação dos 22 mil quartos da região pelos próprios gaúchos. “Com essa estratégia, aliada ao fato de que o dólar valorizado inibiu viagens ao exterior por parte dos brasileiros, compensou a ocupação deixada pelos argentinos – que hoje são apenas cerca de 10% dos hóspedes, mas já significaram 70%”, diz Ivone.

 

10 tópicos para entender a crise argentina

 

O professor de economia da USP Paulo Feldmann explica a crise que levou a Argentina a encerrar o ano com a moeda desvalorizada em cerca de 50% e a inflação acima dos 40%. De acordo com Feldmann, fatores externos e internos levaram o país ao caos econômico.

 

A seguir, veja o que ocorreu: Internamente, houve o problema da seca, que atingiu fortemente a Argentina, afetando a economia, a renda interna e reduzindo o ingresso de dólares com exportações.

 

Outro fator doméstico, diz Feldmann, é o elevado déficit fiscal e a não aprovação da reforma da Previdência no país, o que gerou desconfiança e fuga de investidores. Externamente, com a alta dos juros nos Estados Unidos, muitos investidores saíram de países emergentes e migraram seus negócios para os atrativos e seguros títulos norte-americanos.

 

A valorização do dólar desequilibrou fortemente as contas da Argentina – que tem muitas dívidas em dólares -, que foram ampliadas com mais dois empréstimos feitos com o FMI em 2018. Como contrapartida ao FMI, o governo teve que adotar medidas impopulares, como cortes, ajustes em preços de energia e transporte, e redução de subsídios, agravando o crescimento da economia interna. A

 

migração de investidores atingiu com força a Turquia e a Argentina, que têm histórico problemático neste quesito (leia-se calotes anteriores e os chamados fundos abutres).

 

Ao contrário da Argentina, o Brasil tem cerca de US$ 400 milhões aplicados em títulos do Tesouro norte–americano e foi menos afetado por esse movimento. A desvalorização do peso elevou radicalmente a inflação, gerando uma crise social. Hoje, é necessário o dobro de pesos para comprar US$ 1: passou de cerca de 18 pesos, no início do ano, para quase 40 atualmente.

 

Para conter a debandada de investidores externos, o governo elevou a taxa de juros a 60% – a mais alta do mundo -, encarecendo o custo de vida interno e a obtenção de créditos para financiamento de exportações. Para tentar aumentar suas reservas de recursos, o governo de Mauricio Macri começou a taxar exportação, mas a medida não surtiu efeito e ainda desestimulou exportações, reduzindo a arrecadação.

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