Do Carga Pesada ao Agro POP: o que falta ao TRC

por | mar 25, 2026 | Artigos Técnicos, Núcleo Vale do Paraíba

Fonte: Mariana Varajão, Vice-Coordenadora do Vale do Paraíba
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Chapéu: Artigo Técnico

Houve um tempo em que ser motorista de caminhão era sinônimo de respeito. Mais do que simples conhecimento passado de pai para filho, era paixão, legado – diesel correndo nas veias.

Naquele tempo, a vida nas estradas despertava interesse até em quem não exercia a profissão. Você se lembra do programa Carga Pesada? E do Siga Bem Caminhoneiro, nas manhãs de domingo?

Hoje, o TRC perdeu espaço e relevância. Aos poucos, a imagem do caminhão deixou de representar progresso para se tornar, para muitos, apenas um obstáculo trânsito, só mais uma fonte de poluição na selva de pedras.

Enquanto o TRC perdeu espaço e prestígio, o Agro nunca foi tão POP. Você com certeza conhece a campanha publicitária. Eles conseguiram manter o Globo Rural no ar, viraram tema de novela das nove e ainda emplacaram um novo programa — já assistiu o Viver Sertanejo?

Em poucas décadas, o Brasil deixou de ser súdito de Sula Miranda, a eterna “Rainha dos Caminhoneiros”. Será que hoje a coroa pertence a Ana Castela? Talvez. Se considerarmos quem está ocupando espaços publicitários e lidera as paradas musicais.

Mas brincadeiras saudosistas à parte, o Agro tem um projeto. E o TRC?

Dados da CNT mostram que é o transporte que move o Brasil. Como resumiu a diretora executiva Fernanda Rezende: “tudo que é produzido precisa ser transportado.” O setor representa 7% dos trabalhadores formais, são mais de 253 mil empresas. Com o reforço de 733 mil autônomos, que juntos somam uma frota de 2,7 milhões de caminhões registrados no RNTRC (ANTT, 2025).

O termo Agro engloba o agronegócio, a agropolítica e a agro cultura que transformou o imaginário brasileiro nos últimos anos. Não de forma orgânica, mas objetivamente organizada em diversas frentes – de publicidade à eleição de representantes em Brasília. Como aponta a economista Alessandra Orofino, através da engenharia cultural o Agro conseguiu moldar valores e conquistar a opinião pública.

Missão cumprida: hoje é senso comum que o Agro é a locomotiva que move o Brasil. Quanto a TV e música, realmente não há dúvidas. Mas quando analisamos o PIB, esse discurso tende a ser superestimado. O que não impede, que o Agro alcance resultados bem concretos como plano safra cada vez maior, isenções na reforma tributária para citar alguns.

O TRC, pô sua vez, amarga o sonho não realizado de um plano para renovação de frota. Enfrenta restrições de circulação e até exames toxicológicos que reforçam a imagem de vilão do trânsito.

É hora de abandonar a passividade. Vejamos uma das maiores dores do setor atualmente – que já não é novidade: a dificuldade em contratar motoristas. Que a crise tende a se agravar, também não é novidade para ninguém. Mas o que estamos efetivamente fazendo a respeito desse problema? Nos falta um plano de ações de curto e longo prazo.

A boa notícia é que podemos aprender com o case de sucesso, que nos roubou o crédito de mover o Brasil. Porque, enquanto o Agro é POP, é nós caminhões que a economia realmente se movimenta, todos os dias.

O TRC pode aprender com o Agro que planejamento dá resultado. E que investir em engenharia cultural, pode ressignificar a importância de um setor para a sociedade. O mais fraco dos coaches, vai dizer que “para quem não sabe aonde vai, qualquer caminho serve”. Nós que somos especialistas em planejar rotas, não podemos continuar sem destino.

Nosso plano virá com a organização do setor, com ações direcionadas e pensadas a longo prazo. Temos nossas entidades representativas, precisamos ampliar a base de empresas associadas e expandir nossa voz. Hoje falamos apenas entre nós; está na hora de falar com a sociedade.

O TRC não pode mais ser visto apenas como problema. É hora de assumir, com orgulho, o papel que sempre foi nosso: motor do Brasil.