Presidente destacou infraestrutura, segurança, roubo de cargas, profissionais, tecnologia e articulação como pontos essenciais para o desenvolvimento do setor no Brasil
O presidente da NTC&Logística, Eduardo Rebuzzi, participou, nesta quinta-feira, 8 de outubro, do segundo dia da 43ª Assembleia Geral Ordinária da Câmara Internacional de Logística e Transportes (CIT), realizada no Espacio Riesco, em Santiago do Chile.
Dando continuidade à participação da entidade no encontro internacional, Rebuzzi apresentou a palestra “Avanços no Transporte de Cargas e Logística do Brasil”, compartilhando com representantes de diferentes países uma análise sobre a realidade do Transporte Rodoviário de Cargas brasileiro, os avanços registrados pelo setor e os principais desafios que ainda precisam ser enfrentados.
A apresentação partiu da premissa de que, para continuar avançando, o setor precisa enfrentar problemas do presente ao mesmo tempo em que se prepara para as transformações do futuro. Na palestra, o presidente destacou temas relacionados à infraestrutura, segurança, regulação, disponibilidade de profissionais e incorporação de novas tecnologias às operações.
Entre os desafios apontados, está a condição da infraestrutura rodoviária brasileira. Com base na Pesquisa CNT de Rodovias 2025, Rebuzzi comentou que 62,1% dos 114.197 quilômetros avaliados apresentam condições classificadas entre regulares e péssimas, cenário que interfere diretamente na segurança, na eficiência e nos custos das operações de transporte.
Outro ponto central foi a segurança no Transporte Rodoviário de Cargas. A explanação ressaltou o roubo de cargas entre os problemas que continuam afetando o setor, ao lado de questões relacionadas ao piso mínimo do frete, Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT), seguros, segurança jurídica e regulamentação da jornada.
O tema também deu continuidade às discussões realizadas no primeiro dia da Assembleia, quando representantes brasileiros expuseram iniciativas e experiências voltadas ao enfrentamento ao roubo e à receptação de cargas. Na ocasião, foram discutidas medidas capazes de atingir não apenas os autores diretos dos crimes, mas também aqueles que sustentam economicamente essa cadeia por meio da receptação.
Para Eduardo Rebuzzi, o avanço do setor depende de uma atuação integrada sobre diferentes desafios que afetam diariamente as empresas transportadoras.
“O Transporte Rodoviário de Cargas brasileiro tem avançado muito, especialmente em tecnologia, gestão e eficiência, mas ainda convivemos com desafios importantes, como a infraestrutura, a falta de profissionais qualificados, a segurança jurídica e, de forma muito significativa, o roubo de cargas, que continua impactando diretamente as empresas, os trabalhadores e toda a cadeia logística. Para continuar evoluindo, precisamos transformar inovação em produtividade, aproximar a tecnologia da realidade das transportadoras e fortalecer a articulação entre empresas, entidades e poder público. O desenvolvimento do setor depende dessa construção conjunta e da capacidade de enfrentar, de forma efetiva, os problemas que impactam diariamente nossas operações”, destaca Rebuzzi.
Profissionais e novos desafios das operações
A disponibilidade de profissionais também esteve entre os temas apresentados pelo presidente da NTC&Logística. Segundo dados do Departamento de Custos Operacionais e Pesquisas Técnicas e Econômicas (DECOPE) da NTC&Logística, 65,1% apontam dificuldade na contratação de motoristas, evidenciando desafios relacionados à formação, qualificação, retenção e organização das jornadas de trabalho.
A questão ganhou espaço também na programação oficial desta quinta-feira, que contou com debate específico sobre a escassez de condutores profissionais, um problema que vem sendo observado em diferentes mercados e que afeta diretamente a capacidade operacional das empresas de transporte.
Tecnologia para transformar a operação
Outro eixo da apresentação foi o papel da tecnologia no desenvolvimento do Transporte Rodoviário de Cargas. Rebuzzi destacou que a inovação precisa ser transformada em produtividade, segurança e sustentabilidade, chegando de fato à realidade das empresas.
Entre as frentes abordadas, estiveram a integração de sistemas, Inteligência Artificial e automação de processos, além da utilização de telemetria, manutenção preditiva, gestão de riscos e cibersegurança. A evolução da frota também integrou a apresentação, com destaque para veículos conectados, eletrificação e perspectivas futuras relacionadas aos veículos autônomos.
A mensagem da NTC&Logística acentuou que a inovação tecnológica precisa estar conectada às necessidades reais das transportadoras, contribuindo para tornar as operações mais eficientes, seguras e competitivas.
Cinco pontos para avançar
Ao sintetizar os caminhos considerados fundamentais para o desenvolvimento do setor, Eduardo Rebuzzi apresentou cinco frentes prioritárias.
A primeira é a existência de uma infraestrutura adequada, capaz de garantir maior segurança e previsibilidade às operações. A segunda envolve profissionais qualificados e valorizados, essenciais para sustentar a atividade.
A terceira frente está relacionada a regras claras e segurança jurídica, incluindo a necessidade de legislação e medidas mais rigorosas para combater a cadeia de receptação de cargas roubadas e proporcionar às empresas condições para planejar e investir.
A quarta prioridade é tornar a tecnologia acessível e integrada à realidade das transportadoras. Por fim, Rebuzzi destacou a importância da articulação entre empresas, entidades e poder público para que os desafios enfrentados pelo setor sejam transformados em ações e resultados concretos.
Ao encerrar a apresentação, o presidente reforçou a mensagem de que o avanço do transporte de cargas e da logística do Brasil passa pela inovação e pela solução dos desafios enfrentados diariamente pelo setor.
Segundo dia amplia debates internacionais
Além da apresentação de Eduardo Rebuzzi, o segundo dia da 43ª Assembleia Geral Ordinária da CIT concentrou uma ampla agenda de discussões internacionais: impactos de eventos climáticos extremos no transporte e na logística, exigindo que a resiliência climática seja tratada como condição essencial de continuidade operacional; resiliência das cadeias de suprimentos e gestão de emergências no Japão, além da importância da cooperação entre a CIT e a União Internacional dos Transportes Rodoviários (IRU).
Também foram discutidos os desafios da representação setorial do transporte, a integração turística e as dificuldades para atravessar fronteiras, os desafios hídricos do Canal do Panamá e as possibilidades de fortalecimento de corredores terrestres.
A programação incluiu a atuação da CIT na defesa dos interesses das entidades do transporte perante organismos governamentais, a integração de agentes de Inteligência Artificial e o panorama da acessibilidade no transporte brasileiro.
O Sistema Transporte participou da programação por meio do SEST SENAT, representado pela diretora-executiva nacional, Nicole Goulart, que apresentou a experiência brasileira na promoção da acessibilidade no transporte e os resultados do programa Rota da Acessibilidade. A iniciativa reúne ações de qualificação profissional, inclusão no mercado de trabalho, acessibilidade física, digital e comunicacional, melhoria do atendimento e preparação das empresas para contratar, acolher e desenvolver profissionais com deficiência.
Durante a apresentação, Nicole destacou que a acessibilidade deve acompanhar toda a jornada da pessoa, envolvendo não apenas infraestrutura e atendimento adequados, mas também condições para qualificação, participação em processos seletivos, ingresso no mercado de trabalho e desenvolvimento profissional. “As experiências de outros países nos ajudam a compreender que a acessibilidade precisa acompanhar toda a jornada da pessoa”, afirmou.

A diretora também apresentou dados do programa desenvolvido pelo SEST SENAT. Entre os resultados estão 160 turmas de formação profissional para pessoas com deficiência, com mais de 3.500 matrículas, além de mais de 500 pessoas encaminhadas para oportunidades no setor. Nas ações relacionadas à Libras, inclusão e atendimento humanizado, foram realizadas mais de 1.400 turmas, que somaram mais de 50 mil matrículas. Os serviços de saúde do SEST SENAT também contabilizaram mais de 7 mil atendimentos a pessoas com deficiência.
Nicole apresentou ainda o Estudo de Materialidade do Setor de Transporte Rodoviário, elaborado pelo SEST SENAT, que analisou 30 temas potencialmente relevantes e identificou dez prioridades para a agenda ESG. Entre elas estão questões ligadas à saúde, segurança e qualidade de vida dos trabalhadores; formação, desenvolvimento e retenção de profissionais; qualidade e segurança no atendimento aos usuários e tomadores de serviço, e condições dignas de trabalho em toda a cadeia do transporte. Nesse contexto, a acessibilidade foi apresentada como uma agenda transversal, relacionada aos usuários, à formação profissional, à empregabilidade e às condições de trabalho.
Na sequência da agenda, foram tratados assuntos referentes ao aumento dos preços dos combustíveis; ao futuro do transporte de cargas entre Peru e Chile; às fronteiras eficientes e corredores logísticos; a medidas adotadas por países importadores de combustíveis fósseis e a questões envolvendo contêineres e transporte multimodal.
O encontro também reservou espaço para fóruns sobre jornada de trabalho e semana de 40 horas, Rota Bioceânica e gestão de riscos e coberturas no transporte, além dos momentos dedicados a marcas, tecnologia e negócios.
A segurança das operações internacionais também ganhou espaço durante a Assembleia com a instituição da agenda regional “CIT – Corredores Internacionais de Carga Segura”. O documento prevê articulação entre os países para enfrentar riscos como roubo de cargas e veículos, sequestro de motoristas, contrabando e contaminação de cargas, ampliando a cooperação internacional em torno da segurança da cadeia logística.


