A Transição para Veículos de Baixa Emissão no Brasil: Desafios e Perspectivas

O setor de transporte rodoviário no Brasil enfrenta desafios significativos relacionados à sustentabilidade, eficiência e segurança. A renovação de frotas e a transição para veículos de baixa emissão são temas estratégicos que podem transformar esse cenário, impactando positivamente a economia, o meio ambiente e a saúde pública. Este artigo explora o cenário histórico, o atual e as perspectivas futuras, destacando os impactos positivos e negativos, custos, sustentabilidade dos negócios e viabilidade.


Cenário Histórico
Historicamente, o transporte rodoviário brasileiro foi marcado por frotas envelhecidas, com idade média de 25 anos. Veículos menos eficientes e altamente poluentes dominaram o setor, aumentando custos operacionais e emissões. Além de comprometendo a segurança nas estradas são também, um dano notável à saúde de modo geral. Sem programas nacionais de renovação, esses problemas persistiram, limitando o crescimento sustentável, a competitividade logística, deixando uma frota sucateada, problemas ambientais, sociais, de saúde e de lucratividade para as empresas.


Cenário Atual
Atualmente, iniciativas como o programa Renovar começam a abordar esses desafios. Por meio de incentivos, esse programa promove a substituição de veículos antigos por modelos modernos, como caminhões equipados com motores Euro 6, que emitem até 87% menos poluentes. Além disso, estudos revelam que caminhões fabricados após 2022 podem reduzir 95,4% das emissões de gases poluentes.
A adoção dessa tecnologia melhora a segurança viária e a qualidade do ar, enquanto os impactos positivos na saúde pública ajudam a reduzir gastos com doenças respiratórias e cardiovasculares. Entretanto, a modernização da frota ainda enfrenta barreiras significativas: apenas 4,9% dos veículos em operação se enquadram nessa categoria avançada, devido ao elevado custo dos modelos modernos.

Apesar das dificuldades, a urgência de ampliar essa adesão e intensificar os investimentos permanece evidente, reforçando o compromisso com a sustentabilidade e o progresso. Nesse contexto, destaca-se também a atuação de empresas relevantes no setor. Um exemplo é a Lenarge, associada ao SETCEMG, que recentemente adquiriu a Carbon Zero, iniciativa voltada à descarbonização do transporte. Essa compra simboliza o avanço do setor privado em alinhar práticas empresariais à agenda de sustentabilidade, demonstrando como transportadoras podem liderar pelo exemplo ao investir em soluções de baixo impacto ambiental. A aquisição gerou diversas discussões entre os integrantes da COMJOVEM Belo Horizonte e Região, que passaram a trocar informações, experiências e reflexões sobre os impactos e oportunidades dessa iniciativa para o futuro do transporte sustentável.


Perspectivas Futuras
O futuro aponta para uma transição energética mais diversificada, com veículos elétricos, híbridos e a hidrogênio ganhando espaço. Embora desafios como custos elevados e infraestrutura de recarga restrita ainda limitem a expansão dessas tecnologias, alternativas intermediárias, como diesel verde, GNV, GNL e biocombustíveis, oferecem soluções viáveis. A Medida Provisória 1175/23, que prevê fundos para financiar a renovação de frotas, é um passo essencial para acelerar essa mudança.


Impactos Positivos e Negativos
Positivos:

  • Redução drástica de emissões, contribuindo para o combate às mudanças climáticas.
  • Economia operacional a médio e longo prazo, com maior eficiência energética.
  • Benefícios diretos à saúde pública, diminuindo custos com tratamentos médicos.
  • Incentivos fiscais e programas governamentais.
  • Avanços tecnológicos que tornam os veículos mais seguros e eficientes.
  • Fortalecimento da indústria automotiva, com aumento da produção.
  • Mudança de perfil e qualificação da mão de obra.
  • Melhora da reputação das empresas aderentes.
    Negativos:
  • Elevados custos iniciais para aquisição de veículos modernos.
  • Resistência dos pequenos transportadores às mudanças devido ao impacto financeiro.
  • Falta de infraestrutura adequada para tecnologias emergentes, como veículos elétricos
    e a hidrogênio.
  • Políticas inconsistentes, que prejudicam a continuidade dos programas de renovação.
  • Dependência de combustíveis fósseis em regiões com infraestrutura limitada.
  • A não absorção dos custos pelo mercado.

Sustentabilidade e Viabilidade
A renovação de frotas é uma estratégia indispensável para garantir a sustentabilidade dos negócios no setor de transporte, promovendo eficiência operacional, redução de custos e maior competitividade. Investir em veículos modernos e tecnologias de baixa emissão não só reduz os impactos ambientais, como também melhora a saúde pública, além de reforçar a reputação das empresas junto ao mercado e à sociedade.
Apesar dos custos iniciais elevados, os benefícios econômicos, ambientais e sociais justificam plenamente essa transição. A viabilidade dessa mudança depende de políticas públicas consistentes, linhas de financiamento acessíveis e da colaboração entre governo, setor privado e entidades representativas.
Por fim, além de ser uma resposta aos desafios ambientais e logísticos, a renovação de frotas é uma oportunidade estratégica de transformação e crescimento. Ela posiciona o setor de transporte brasileiro como um agente fundamental na construção de um futuro mais sustentável, eficiente e inovador.

Referências:
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS FABRICANTES DE VEÍCULOS AUTOMOTORES (ANFAVEA). Balanço da Indústria Automotiva 2024. São Paulo: ANFAVEA, 2024. Disponível em: https://anfavea.com.br. Acesso em: 26 ago. 2025.
CONFEDERAÇÃO NACIONAL DO TRANSPORTE (CNT). Relatório CNT 2024: Emissões e Tecnologia Veicular. Brasília: CNT, 2024. Disponível em: https://cnt.org.br/. Acesso em: 26 ago. 2025
EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA (EPE). Plano Decenal de Expansão de Energia 2032. Rio de Janeiro: EPE, 2023. Disponível em:
https://www.epe.gov.br. Acesso em: 26 ago. 2025.
INSTITUTO DE ENERGIA E MEIO AMBIENTE (IEMA). Avaliação da Política de Qualidade do Ar e Mobilidade Sustentável. São Paulo: IEMA, 2022. Disponível em: https://iema.org.br. Acesso em: 26 ago. 2025.
INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). Global EV Outlook 2024. Paris: IEA, 2024. Disponível em: https://www.iea.org. Acesso em: 26 ago. 2025.
SANTOS, Eduardo; PEREIRA, Luana. Logística Sustentável e Transporte de Baixa Emissão no Brasil. Revista de Transportes e Logística, v. 10, n. 2, p. 45-62,

VASCONCELOS, Flávia. Inovação e Sustentabilidade no Setor de Transportes. Rio de Janeiro: Elsevier, 2022.

Palestra da COMJOVEM sobre Design Thinking aborda inovação e criatividade

Palestra da COMJOVEM sobre Design Thinking aborda inovação e criatividade

A COMJOVEM realizou o Almoço & Ideias sobre Design Thinking com Marcos Breder, professor da FDC e UEMG, e autor do livro Geração IA, na última quinta-feira (23), em Belo Horizonte. 

Breder mostrou como a metodologia pode ser uma poderosa aliada para quem busca transformar desafios complexos e encontrar soluções inovadoras no dia a dia corporativo, conectando pessoas e ideias. 

Participação das mulheres no setor de transportes em Minas Gerais está abaixo da média nacional

Participação das mulheres no setor de transportes em Minas Gerais está abaixo da média nacional

Segundo dados do levantamento feito pela CNT, a participação feminina no setor em todo o Brasil foi de 18,89% em 2024

O setor de transportes registrou 297.872 vínculos empregatícios ativos em Minas Gerais no ano passado. Dentre eles, 82,6% eram de homens e 17,4%, de mulheres no Estado. Conforme os dados do levantamento feito pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), a participação feminina em Minas está abaixo da média nacional (18,89%).

A pesquisa, feita com base na Relação Anual de Informações Sociais (Rais) do Ministério do Trabalho e Emprego, demonstra que o Estado encerrou 2024 com 51.880 mulheres e 297.872 homens atuando no setor de transportes. Já no Brasil, dos 2.821.899 vínculos empregatícios, 2.288.893 eram de homens e 533.006, de mulheres.

A coordenadora do Núcleo de Belo Horizonte e Região da Comissão de Jovens Empresários e Executivos do Transporte Rodoviário de Cargas (Comjovem), Ana Paula de Souza, relata que a participação das mulheres vem evoluindo nos últimos anos. Ela lembra que o cenário, há 20 anos, era diferente do atual, com o transporte sendo considerado como uma atividade exclusivamente masculina.

Além disso, as condições eram menos propícias para a atuação feminina no setor, exigindo muita força física para realizar algumas ações do dia a dia na estrada. Para a dirigente, existiam muitas barreiras técnicas, enquanto, hoje em dia, a dificuldade está relacionada a questões culturais. “Hoje, nós temos direção hidráulica e câmbio automático nos veículos, entre outras tecnologias, e muita infraestrutura de apoio”, diz.

Ela destaca que a diferença de Minas Gerais para as demais regiões não é muito grande. O Estado pode até não ser o grande destaque positivo quanto à equidade de gênero no setor, mas também não está entre os casos mais preocupantes do país. “Existem políticas que estão sendo trabalhadas para mudar essa realidade, e eu acredito que Minas Gerais, em breve, estará dentro da média nacional”, pontua.

O estudo da CNT ainda mostra que 17,47% das mulheres possuem de seis a 11,9 meses de trabalho; logo em seguida aparece o grupo de 12 a 23,9 meses, com 17,13% do total em Minas. No caso dos homens, a maioria (16,17%) já possui 120 meses ou mais, seguido daqueles com 12 a 23,9 meses de emprego (15,51%).

Além disso, das 51.880 mulheres que atuam no setor no Estado, 28,81% possuem entre 30 e 39 anos de idade; outras 22,68% estão na faixa etária entre 40 e 49 anos. Por outro lado, a maioria (27,43%) dos homens no setor tem de 50 a 64 anos, seguido do grupo com 30 a 39 anos, com 24,53% do total.

Ações para ampliar a participação das mulheres no setor de transportes

Ana Paula de Souza avalia que muitos estigmas estão sendo superados, principalmente com a adoção de políticas ESG nas empresas do setor de transportes. Ela afirma que esses esforços estão resultando na atração de mais mulheres para essa atividade ainda dominada pelos homens. Em alguns casos, as empresas têm ampliado de cinco para 80 mulheres em seu quadro de funcionários, em um período de três anos.

“Nós temos visto várias empresas adotando essas políticas ESG e essas mudanças na cultura. Isso tem se transformado em vagas ocupadas por mulheres”, afirma.

O levantamento realizado pela CNT demonstra que o grupo com Ensino Médio completo é superior aos demais, tanto entre as mulheres quanto entre os homens. Dentre as mulheres mineiras que trabalham no setor de transportes, 60,55% possuem esse grau de escolaridade, contra 60,09% entre os homens. No Brasil, o cenário é de 63,85% dos homens com Ensino Médio completo, contra 60,98% das mulheres.

Além de coordenar o Núcleo da Comjovem em Belo Horizonte e Região, Ana Paula de Souza também é gestora de operações da AD Souza Transportes e Logística. Segundo a dirigente, a maioria das mulheres atua na área administrativa das empresas de transporte, com menos participação na área operacional e nos cargos de liderança. “As mulheres ocupam apenas 3% ou 4% dos cargos de liderança. Essa participação é muito menor que os 17,4% observados em termos gerais”, acrescenta.

Ela ressalta que o tema da equidade no setor tem como objetivo proporcionar oportunidades iguais para homens e mulheres, respeitando as diferenças e reconhecendo as dificuldades que ainda existem. Para a especialista, temas como o fim do tabu envolvendo a licença-maternidade e a melhoria na infraestrutura são fundamentais para garantir condições iguais para ambos.

“Nós ainda temos muitas dificuldades em relação à infraestrutura no Brasil, com relação ao ponto de parada de motoristas, por exemplo. Muitas mulheres chegam em determinados embarcadores que não possuem banheiro feminino ou cujo banheiro está inadequado para uso”, relata.

Ana Paula de Souza ressalta que a participação das mulheres vem crescendo, mas ainda necessita de muitas adaptações e de políticas ESG para mudar o ambiente e torná-lo propício para que as mulheres possam assumir ainda mais cargos de lideranças ou na área operacional das empresas.

A expectativa, segundo a dirigente, é que os próximos anos sejam de mudanças, com mais participação de mulheres também nas comissões e demais entidades do setor de transportes. “Nós precisamos de mais representatividade das mulheres”, completa.

Tendências Atuais e Futuras no Setor de Transporte de Cargas

O setor de transporte de cargas está em constante evolução, impulsionado por inovações tecnológicas, mudanças nas demandas do mercado e a crescente preocupação com a sustentabilidade. Analisar as tendências atuais e futuras é essencial para entender como as empresas podem se adaptar e se preparar para enfrentar os desafios e aproveitar ao máximo as oportunidades.

Tendências Atuais

  1. Digitalização e Automação: A digitalização está transformando o setor de transporte de cargas, com o uso de sistemas de gerenciamento de transporte (TMS), rastreamento em tempo real, roteirizadores inteligentes e plataformas digitais para gerenciamento de frotas. A automação de processos, como a utilização esteiras com leitura de RFID (Radio Frequency Identification), QR Codes (Código QR), Cube Tapes e códigos de barras, já uma realidade e vem conquistando cada vez mais seu espaço. Embora veículos autônomos e drones ainda sejam uma novidade no Brasil, essa tecnologia já está em expansão em outros países, prometendo maior eficiência e redução de custos operacionais.
  2. Sustentabilidade: A preocupação com a sustentabilidade cresce a cada ano, levando empresas a adotar práticas que reduzem a pegada de carbono, como o uso de combustíveis alternativos (biocombustíveis e eletricidade) e a otimização de rotas. No entanto, a sustentabilidade vai além das práticas ambientais. Para ser realmente eficaz, ela precisa garantir também a viabilidade econômica da empresa, equilibrando inovação e rentabilidade. Adotar soluções sustentáveis sem planejamento financeiro pode comprometer a longevidade do negócio.
  3. E-commerce e Logística Last Mile: Com o crescimento do comércio eletrônico, a demanda por soluções de logística last mile (última milha) está em alta. Empresas estão investindo em tecnologias que garantam entregas rápidas e eficientes, com rastreabilidade em tempo real das cargas, atendendo às expectativas dos consumidores por conveniência e agilidade.

Tendências Futuras

  1. Internet das Coisas (IoT) e Big Data: O uso de IoT e Big Data está revolucionando o setor, permitindo monitoramento e análise de dados em tempo real. Sensores e dispositivos conectados fornecem informações valiosas sobre a localização, condição e desempenho das cargas, temperatura e umidade, consumo de combustível, desgaste de pneus, condições dos motoristas, ajudando as empresas a tomar decisões baseadas em dados confiáveis em curto espaço de tempo.
  2. Integração de Blockchain A tecnologia blockchain está ganhando espaço na logística, proporcionando transparência e segurança nas transações. A rastreabilidade e a imutabilidade dos registros blockchain oferecem uma solução confiável para a gestão de cadeias de suprimentos complexas e na logística como um todo.
  3. Inteligência Artificial e Machine Learning A aplicação de inteligência artificial (IA) e machine learning (ML) no transporte de cargas está abrindo novas possibilidades para otimização de rotas, previsão de demanda e manutenção preditiva. Essas tecnologias permitem que as empresas melhorem a eficiência operacional e reduzam custos.
  4. Logística Colaborativa A colaboração entre empresas do setor está se tornando uma prática comum. Parcerias estratégicas permitem o compartilhamento de recursos e infraestruturas, resultando em economias de escala e maior eficiência. No entanto, para que funcione de maneira sustentável, é essencial formalizar os acordos por meio de propostas, contratos e registros claros, garantindo transparência, benefícios mútuos e sustentáveis.

Conclusão

O setor de transporte de cargas está em plena transformação, impulsionado por inovações tecnológicas e novas expectativas de mercado.  Empresas que se adaptam a essas mudanças ganham eficiência, reduzem custos, fortalecem sua reputação, agregam valor à sua marca e se destacam no cenário competitivo.

A capacidade de inovar, adaptar, colaborar e investir em soluções sustentáveis será determinante para enfrentar os desafios do futuro e aproveitar ao máximo as oportunidades que virão.

Já passamos por muitas mudanças, nos adaptamos e tiramos o melhor proveito, mas ainda temos uma longa e rica estrada a percorrer. A jornada está só começando.

Andre Parreiras Coelho, membro da Comjovem BH e Região

Padronização e Rastreabilidade no Transporte de Combustíveis: A Aplicação de Blockchain e Contratos Inteligentes

O transporte de combustíveis é uma atividade essencial para a economia brasileira, movimentando grandes volumes de produto diariamente através de uma complexa cadeia de suprimentos que envolve distribuidoras, transportadoras, e postos de revenda. No entanto, esse processo enfrenta desafios críticos relacionados à qualidade e à integridade dos combustíveis transportados. A adulteração de combustíveis, que pode ocorrer em diversos pontos dessa cadeia, representa um risco significativo tanto para os consumidores quanto para as empresas envolvidas, resultando em danos aos veículos, prejuízos econômicos, e perda de confiança no mercado.

Este artigo explora a aplicação de blockchain e contratos inteligentes no transporte de combustíveis, focando nos desafios de qualidade e rastreabilidade. Além de identificar as vulnerabilidades atuais, ele propõe uma solução inovadora que utiliza essas tecnologias para proteger todos os envolvidos na cadeia de suprimentos e garantir a integridade do produto.

Em 2023, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) registrou 4.928 autos de infração relacionados a irregularidades no mercado de combustíveis, dos quais 923 foram por não conformidade na qualidade. Esses números evidenciam os significativos problemas enfrentados pelos consumidores e autoridades reguladoras na luta contra a adulteração de combustíveis, que continua a minar a confiança do consumidor e a integridade do mercado.

Além dos postos de revenda, transportadoras e empresas com tanques internos, que dependem da qualidade do combustível para suas operações, também enfrentam dificuldades na garantia da integridade dos combustíveis recebidos. Embora algumas distribuidoras utilizem marcadores para identificar e controlar a qualidade do produto, essa prática isolada não é suficiente para assegurar a rastreabilidade completa e a integridade do combustível.

Ao contrário de produtos sólidos, que mantêm formas e volumes constantes, o combustível sofre alterações volumétricas conforme mudanças de temperatura, complicando o processo de recebimento. Por essa razão, é necessário realizar análises de temperatura e densidade no momento da entrega para garantir que o volume entregue esteja dentro dos padrões esperados. Contudo, essas verificações, por si só, demonstram-se frágeis e insuficientes para assegurar a total integridade do combustível recebido.

Os membros dos núcleos COMJOVEM de Belo Horizonte e Região e do Centro Oeste Mineiro tiveram a oportunidade de realizar benchmarking durante um workshop promovido pela Transportadora Andrade, empresa associada ao SETCEMG e dirigida por um membro da COMJOVEM. O workshop abordou as especificidades do processo de recebimento de combustíveis e os procedimentos para medir densidade e temperatura. Durante o evento, ficou claro que, apesar dessas práticas serem rigorosamente seguidas, o processo de recebimento

ainda apresenta fragilidades, pois não é possível garantir totalmente a integridade do produto apenas com essas verificações. Esse fato sublinha a importância de adotar tecnologias complementares, como o blockchain, para fortalecer o processo e garantir uma rastreabilidade completa e inalterável desde a origem até o destino final.

O blockchain tem o potencial de transformar o setor de transporte de combustíveis, criando um registro imutável de todas as transações, desde a origem até o consumidor final. Com contratos inteligentes, cada etapa do processo de distribuição pode ser automatizada e verificada, reduzindo a possibilidade de adulteração por ação humana ou erros operacionais. Esses contratos garantem que apenas combustível verificado e testado seja entregue, com cada etapa do processo registrada e confirmada por todas as partes envolvidas.

A combinação de marcadores de combustíveis com blockchain e contratos inteligentes pode oferecer um nível de segurança muito maior, assegurando que todas as etapas sejam monitoradas e registradas de maneira inviolável.

Em uma iniciativa recente, a Petrobras, uma das maiores empresas de energia do mundo, implementou blockchain para rastrear e verificar a procedência dos combustíveis em tempo real. Essa aplicação não apenas melhorou a transparência do processo, mas também proporcionou uma economia significativa ao reduzir a necessidade de intermediários e simplificar os procedimentos de auditoria. Além disso, essa tecnologia contribuiu para a sustentabilidade das operações, ajudando a empresa a monitorar e diminuir o impacto ambiental de suas atividades.

Para enfrentar esses desafios, surge a oportunidade de desenvolver um sistema padronizado de rastreamento aplicável a todas as distribuidoras de combustíveis. A solução pode estar dentro da própria NTC & Logística, por meio da colaboração entre a Câmara Técnica de Produtos Perigosos e o Instituto COMJOVEM. Juntos, eles podem liderar a padronização do processo de recebimento de combustíveis no setor de transporte. Combinando a expertise técnica da Câmara na elaboração de normas com a capacidade do Instituto COMJOVEM em desenvolver soluções mercadológicas e inovadoras, essa parceria pode implementar um sistema utilizando blockchain e contratos inteligentes. Isso garantiria a integridade e rastreabilidade dos combustíveis, beneficiando toda a cadeia logística e fortalecendo a segurança e a eficiência no setor.

A implementação de blockchain e contratos inteligentes no transporte de combustíveis tem o potencial de revolucionar o setor, aumentando a confiança tanto dos consumidores quanto das empresas. Além de elevar significativamente a segurança, essa tecnologia proporciona vantagens econômicas ao reduzir custos relacionados a manutenções veiculares e litígios decorrentes de danos causados por combustíveis adulterados. A padronização dessas tecnologias oferece uma solução robusta para os desafios de rastreabilidade, integridade e qualidade, sublinhando a importância de uma abordagem tecnológica para proteger os consumidores e assegurar a sustentabilidade do setor.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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PETROBRAS.      Relatórios      Anuais      e      de      Sustentabilidade.      Disponível       em: https://www.investidorpetrobras.com.br/pt/relatorios-anuais. Acesso em: 25 ago. 2024.

RANGEL.              Blockchain               na               logística.               Disponível               em: https://www.rangel.com/pt/blog/blockchain-na-logistica/. Acesso em: 25 ago. 2024.

SCIENCE DIRECT. Blockchain in the transportation of fuels. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1366554522002459. Acesso em: 25 ago. 2024.

WILEY ONLINE LIBRARY. Blockchain and Smart Contracts in Transportation. Disponível em: https://ietresearch.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1049/blc2.12005. Acesso em: 25 ago. 2024.

Blockchain e Contratos Inteligentes : Solução Nova para um Problema Antigo

De um enredo de uma série da HBO como Westworld a uma distopia totalitária como a criada por George Orwell no livro 1984, muito se teoriza sobre a inserção de mais tecnologia no nosso cotidiano. Entretanto, pouco se especula sobre as oportunidades de ganhos que surgem com a introdução de soluções tecnológicas simples em nossa realidade. Uma dessas soluções é o Blockchain associado aos Contratos Inteligentes.

Apesar do nome pomposo, Blockchain é um conceito simples. Consiste em uma gravação digital de informação que é executada ou compartilhada com aqueles que se interessam. Suas características essenciais são: imutabilidade das informações gravadas; descentralização do processo de gravação e distribuição da informação; auditabilidade e capacidade de automatização. Em uma analogia leiga, o Blockchain é uma informação oficial.

É esta capacidade de tornar algo oficial no digital que concedeu ao Blockchain contornos revolucionários. Anteriormente, verificar a veracidade de informações no campo digital era quase impossível. No Blockchain, as auditorias são realizáveis, pois os dados são gravados em cadeia. Cada bloco de informação contém um hash, que é uma série de números e letras calculado a partir do bloco anterior. Desta forma, cada bloco depende de todos os blocos anteriores. Qualquer alteração no conteúdo de um bloco propaga uma reação sequencial. Assim, cada novo dado, para ser introduzido, necessita de consenso entre todos os agentes da operação, oferecendo confiabilidade e segurança na informação oferecida. Novamente em uma comparação menos abstrata, hashes são números de séries de um produto. Um hash individual seria um conjunto de 3 números dentro deste número de série, enquanto o Blockchain seria o diário oficial no qual consegue-se verificar a legenda para cada um destes códigos colocados no número final. O interessante desta tecnologia é que, diferentemente do seu irmão analógico, as informações estão disponíveis imediatamente a todas as partes interessadas.

Durante as reuniões de núcleo, os membros da COMJOVEM Belo Horizonte e Região discutiram a importância de acompanhar o ciclo de vida da carga, principalmente aquelas com alto nível de adulteração. Em 2007, por exemplo, o Ministério Público constatou que mais de 300 mil litros de leite contendo formol, água oxigenada e soda cáustica foram colocados à venda. De um total de 275 denunciados pela fraude do leite, 25 foram condenados e, em sua maioria, transportadores. Em um cenário como este, um transportador terceirizado estaria exposto a riscos legais e comerciais, por involuntariamente estar envolvido em uma cadeia de

suprimentos criminosa.

Com a tecnologia do Blockchain, situações similares seriam evitadas. Os recibos e certificados em papel podem ser facilmente modificados por falsificadores, ao contrário dos registros criptográficos. Outro ponto é a disponibilidade imediata para fins de auditoria a todos integrantes da relação comercial, sejam eles intermediários ou terceiros interessados como órgãos regulatórios. No ambiente do transporte de cargas, essa rastreabilidade como idealizada pelos membros em reunião de núcleo, eleva significativamente o valor percebido pelo cliente produtor de bens de elevado valor, tais como produtores farmacêuticos, com investimento relativamente baixo. Abre-se aqui, a necessidade de uma breve explicação de outro conceito intrínseco ao Blockchain: os Contratos Inteligentes.

Os Contratos Inteligentes são automatizações executadas quando condições predeterminadas são satisfeitas. Estes, por definição, não são necessariamente baseados em Blockchain. A ideia original era digitalizar e automatizar contratos legais, porém com a associação ao Blockchain, tornou-se possível automatizar o processo de validação de condições de forma segura e objetiva. O maior benefício desta abordagem é eliminar a dependência de intermediários para a verificação de trocas financeiras assim como de fluxos de auditoria.

No ambiente logístico, prazos de entrega menores oferecem vantagem competitiva. Diferentes territórios têm políticas regulatórias variadas. A cultura e a sociedade de uma região têm impacto em como as operações logísticas são gerenciadas e executadas. Esta subjetividade se mostra ainda mais presente nas operações internacionais. Cotidiano são os casos de cargas confiscadas por órgãos de fiscalização por incompatibilidade de informações. A incerteza decorrente destes fatores subjetivos gera um risco difícil de avaliar e mitigar para os entes logísticos.

Esses desafios ampliaram-se para empresas modernas que possuem consumidores e fornecedores espalhados pelo mundo. Entretanto, contratos inteligentes associados ao Blockchain, podem reduzir os atrasos envolvidos numa cadeia de abastecimento complexa, através do armazenamento e gerenciamento de informações de forma unificada e simplificada.

Resumidamente, uma realidade mais tecnocêntrica não envolve teorias mirabolantes nas quais androides dominam o mundo. A principal diferença entre bancos de dados convencionais e gerenciamento de dados baseada em Blockchain é que, no último, os dados são imutáveis, distribuídos e descentralizados por natureza. O Blockchain é uma solução nova para um problema antigo: comunicação eficaz e segura. Cabe a nós alterar a perspectiva para vivenciar a tecnologia como ferramenta de enriquecimento das relações humanas e comerciais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Dez anos após a 1ª Operação Leite Compen$ado no RS, 275 suspeitos foram denunciados e R$ 12 milhões foram revertidos em bens para fiscalização. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/seguranca/noticia/2023/05/uma-decada-apos-a-primeira- operacao-leite-compensado-275-suspeitos-foram-denunciados-e-r-12-milhoes-foram-revertidos- em-bens-para-fiscalizacao-clh6gbr20004l016xohqrirc7.html. Acesso em: 27 jun. 2024.

GOMES, Delber. Contratos ex machina: breves notas sobre a introdução da tecnologia (Blockchain e Smart Contracts) (1 de maio de 2018). REVISTA ELECTRÓNICA DE DIREITO – OUTUBRO 2018 – N.º 3 – ISSN 2182-9845. Disponível em: https://ssrn.com/abstract=3352031. Acesso em: 17 jun. 2024.

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