Empresas reforçam necessidade de gestão de riscos, enquanto governo defende investimentos em acessos e ampliação da capacidade para atender demanda
O setor portuário está alertando para possíveis riscos à cadeia logística com os portos brasileiros operando cada vez mais próximos do limite.
Segundo um levantamento realizado pela consultoria Macroinfra, especializada em transporte e logística, os terminais poderão atingir o limite de capacidade de movimentação de contêineres até o ano de 2030.
O estudo compilou dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). Considerando os anos de 2015 a 2025, o estudo mostrou um quadro de saturação operacional em quatro importantes terminais portuários do país, sendo Santos (SP), Paranaguá (PR), Itajaí/Navegantes (SC) e Itapoá (SC).
Com o cenário saturado, ocorre a migração dos fluxos de contêineres para outros portos e terminais menos ocupados.
Nesse cenário, é previsto o esgotamento da capacidade portuária de movimentação de contêineres no Brasil para os próximos quatro anos, caso os projetos de expansão de capacidade e novos terminais não saiam do papel.
Como mostrou a CNN, o Ministério de Portos e Aeroportos prepara uma nova ferramenta para monitorar a saturação dos portos brasileiros para o próximo ciclo presidencial, entre 2027 e 2030.
Em entrevista, Simone Ramos, diretora de Portos e Logística da Lockton, corretora de seguros global que também atua no gerenciamento de riscos para o setor marítimo e portuário, alertou para os riscos de acidentes, paralisações e perdas financeiras com as operações ocorrendo próximas do limite de capacidade.
Para a executiva, a exposição vai além da capacidade física do terminal e envolve equipamentos, pessoas, tecnologia e a continuidade dos negócios.
Ainda segundo Simone, as empresas estão investindo em novas construções, armazenagem e equipamentos para atender ao crescimento da demanda, mas alerta que ampliar as estruturas enquanto a operação continua funcionando pode criar riscos que precisam ser mapeados.
“Dentro desse limite, ampliar essa operação com a operação funcional, você não tem nada. Então você precisa identificar quais são os principais seguros que devem ser contratados”, reforça.
Governo ainda vê capacidade disponível
Para o secretário Nacional de Portos, Alex Ávila, ainda há capacidade operacional disponível nos portos e ela deve ser analisada considerando o conjunto do sistema portuário, que reúne portos públicos, terminais privados e outras instalações.
Segundo Ávila, essa capacidade é finita e vai sendo consumida pelo crescimento da movimentação de cargas.
“Já esgotamos 100% da nossa capacidade operacional? Não. A gente ainda tem capacidade operacional disponível, tanto é que todos os anos a gente percebe que os nossos portos aumentam seus volumes de carga a serem movimentados”, afirmou.
Apesar da disponibilidade, o secretário defendeu antecipar investimentos para atender à demanda futura, explicando que os projetos levam tempo para se transformar em capacidade efetiva, por envolverem leilões, licenciamento ambiental e obras.
Ainda segundo Ávila, a ampliação dos terminais precisa vir acompanhada de investimentos nos acessos aquaviários, rodoviários e ferroviários.
“Acessos, tanto por água, quanto acessos por terra, rodovia, ferrovia, eles são essenciais para que um porto efetivamente seja um porto”, defendeu.
O secretário também defendeu uma continuidade do planejamento de longo prazo para atender à demanda futura.
No início do mês, o ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, divulgou uma nova carteira de projetos e investimentos do MPor (Ministério de Portos e Aeroportos) para os próximos quatro anos, com investimentos de cerca de R$ 160 bilhões.
Para os portos, o ministério prevê 34 leilões, com investimentos estimados em R$ 20,6 bilhões.
Entre os projetos estão o Tecon Santos 10, no Porto de Santos (SP), com R$ 6,45 bilhões; o SSB01, no Porto de São Sebastião (SP), com R$ 3,84 bilhões; o ITJ01, no Porto de Itajaí (SC), com R$ 2,66 bilhões; o VDC10, no Porto de Vila do Conde (PA), com R$ 1,93 bilhão, e o IQI15, no Porto do Itaqui (MA), com R$ 1,22 bilhão.


