Logística reposiciona Nordeste como polo estratégico para novos negócios

por | ago 11, 2026 | Logística, Notícias, Outros

Fonte: Movimento Econômico – (10/08/2026)
Divulgação
Chapéu: LOGÍSTICA

Integração entre diferentes modais de logística e avanço da infraestrutura ampliam competitividade da região

A logística vive um momento de transformação no Nordeste, e especialistas do setor avaliam que a região reúne condições para assumir um papel ainda mais estratégico na distribuição de cargas do País nos próximos anos. A combinação entre localização geográfica privilegiada, investimentos em infraestrutura, expansão dos portos, crescimento da cabotagem e os efeitos da reforma tributária cria um cenário favorável para novos negócios e para a atração de empresas, que passarão a priorizar eficiência operacional em vez de incentivos fiscais.

A avaliação é compartilhada por executivos que participaram da Multimodal Nordeste 2026, realizada no Recife. O consenso entre eles é que Pernambuco desponta como principal candidato a concentrar operações logísticas destinadas ao atendimento dos mercados nordestinos, principalmente pela posição estratégica do Estado.

“O dado que sempre repetimos é que, em um raio de 800 quilômetros a partir do Recife, concentra-se 90% do PIB do Nordeste. Isso faz de Pernambuco um hub de serviços de logística para toda a região”, afirma o sócio-diretor da Multimodal Nordeste e da CIAT, Domenico Carneiro.

Segundo o executivo, a reforma tributária tende a acelerar esse movimento. Na avaliação dele, as empresas deixarão de definir suas unidades produtivas principalmente pelos incentivos fiscais e passarão a considerar fatores como proximidade dos consumidores e redução dos custos de transporte.

“Hoje existem distorções, como empresas que instalam centros de distribuição no Sul apenas por incentivos fiscais para depois enviar mercadorias ao Nordeste. Com a reforma tributária, essa lógica muda e reforça a importância estratégica de Pernambuco”, destaca Carneiro.

Além da nova dinâmica tributária, ele aponta que investimentos em infraestrutura também fortalecem essa posição, citando a expansão do Complexo Industrial Portuário de Suape, a Ferrovia Transnordestina, a recuperação da malha rodoviária estadual e os projetos ligados à transição energética.

Logística depende da integração entre os modais

Embora os investimentos em infraestrutura sejam considerados fundamentais, especialistas defendem que a competitividade da logística depende principalmente da integração entre diferentes modais de transporte.

Para Domenico Carneiro, rodovias, portos, ferrovias e armazenagem precisam operar de forma coordenada para reduzir custos, aumentar a eficiência e simplificar a gestão das operações.

“Nenhum modal funciona tão bem quanto todos eles juntos. Quando a empresa contrata uma logística integrada, ela deixa de gerenciar diversos fornecedores separados e passa a acompanhar todo o processo por meio de um único operador. Isso gera ganho operacional e reduz a complexidade da operação”, afirma.

Durante a abertura da feira, a organização também apresentou o estudo Diagnóstico da Logística Competitiva, documento elaborado a partir de pesquisas com expositores, visitantes e dados secundários. O levantamento identifica gargalos que ainda limitam a competitividade de Pernambuco e estima perdas anuais de aproximadamente R$ 1,1 bilhão decorrentes de problemas como congestionamentos e insegurança nas rodovias.

Outro fator apontado como decisivo para elevar a eficiência operacional é o uso crescente da tecnologia na gestão das cargas.

A diretora de relacionamento do Grupo Krona, Celi Pereira, explica que as empresas de gerenciamento de risco passaram a oferecer muito mais do que monitoramento de veículos. A partir das informações geradas pelos rastreadores, hoje é possível acompanhar toda a movimentação da carga em tempo real, permitindo maior controle das operações.

“As informações mostram onde estão os veículos, se já realizaram entregas, quais carretas estão disponíveis e os tempos de trânsito. Todo esse conjunto de dados apoia tanto transportadores quanto embarcadores na tomada de decisões”, afirma.

Ela também avalia que o Nordeste ainda possui amplo espaço para crescimento na movimentação de cargas. Segundo a executiva, o Nordeste já responde por aproximadamente 16% da logística nacional, percentual que tende a crescer diante da saturação de grandes complexos como o Porto de Santos e do avanço operacional dos portos nordestinos.

Reforma tributária muda estratégia das empresas

A expectativa de extinção gradual dos incentivos fiscais também já influencia o planejamento das empresas. Segundo o sócio-diretor da Brasmundi, Júlio Souza, a logística deixará de ser apenas uma etapa operacional para se tornar um dos principais fatores de competitividade dos negócios.

Na avaliação do executivo, empresas importadoras e indústrias já revisam suas malhas de distribuição para reduzir custos e aproximar estoques dos mercados consumidores, movimento que deve ganhar força com a consolidação da reforma tributária.

“Com a previsibilidade do fim dos incentivos fiscais, as empresas estão repensando sua logística em termos de eficiência e redução de custos, distribuindo sua malha em pontos estratégicos do Brasil e buscando a melhor eficiência regional”, afirma.

Souza explica que, em um país de dimensões continentais como o Brasil, a localização dos centros de distribuição e a escolha dos portos de entrada passam a ter peso decisivo na competitividade das operações. Um dos exemplos citados por ele é o da Magazine Luiza, que passou a utilizar o Porto de Suape para importar mercadorias destinadas às regiões Norte e Nordeste.

“Antes, esses produtos chegavam por Santos ou Itajaí. Com estudos mais aprofundados da logística regional, a empresa passou a importar também por Suape, reduzindo os custos do transporte rodoviário e aumentando a eficiência da operação”, destaca.

Para o executivo, esse movimento tende a favorecer operadores logísticos regionais, capazes de oferecer soluções mais próximas dos centros consumidores. “Cada vez mais a eficiência logística será determinante para a competitividade das empresas. Quem conseguir estruturar melhor sua operação terá vantagem nesse novo cenário”, afirma.

Cabotagem amplia espaço na logística do Nordeste

Além da infraestrutura terrestre, outro segmento apontado como estratégico para o fortalecimento da logística regional é a cabotagem. Responsável por conectar portos brasileiros por meio da navegação costeira, o modal ainda representa uma parcela pequena da matriz de transporte nacional, mas é visto como uma alternativa para reduzir custos, emissões de carbono e a dependência do transporte rodoviário.

O diretor-executivo da Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (Abac), Luis Fernando Resano, afirma que, atualmente, apenas 12% da matriz doméstica de transporte utiliza a cabotagem e, desse total, cerca de 60% corresponde ao transporte de petróleo entre plataformas e o continente.

“Na prática, a cabotagem representa menos de 5% da matriz logística brasileira. Historicamente, privilegiamos o transporte rodoviário. Não se trata de competir com os caminhões, mas de utilizar cada modal onde ele é mais eficiente”, afirma.

Segundo Resano, embora o consumidor final raramente perceba sua participação, a cabotagem está presente no dia a dia da população. Equipamentos produzidos na Zona Franca de Manaus, por exemplo, normalmente percorrem boa parte do trajeto em navios antes de seguirem por caminhões até os centros de distribuição e os consumidores.

“O navio não chega até a loja nem até a casa do consumidor. Ele integra uma cadeia logística que termina no transporte rodoviário. Os modais são complementares”, destaca.

Essa visão é compartilhada pela Norcoast, empresa especializada em navegação costeira. Para o diretor Norte-Nordeste da companhia, Otávio Cabral, o crescimento econômico da região abre espaço para ampliar significativamente o transporte marítimo entre os estados nordestinos e a Região Norte.

“O PIB do Nordeste vem crescendo acima da média nacional, e a logística precisa acompanhar esse movimento. Vemos novos investimentos em armazenagem, infraestrutura portuária e companhias marítimas. É um ambiente muito favorável para novos negócios”, afirma.

Segundo Cabral, praticamente todos os segmentos econômicos podem ampliar o uso da cabotagem, desde materiais de construção até aço, resinas plásticas e bens de consumo. “Ainda existe predominância do modal rodoviário, então há muito espaço para crescimento da cabotagem em praticamente todos os setores da economia nordestina”, diz.

A expansão já faz parte da estratégia da Norcoast. Depois de iniciar operações em Pecém e Suape, a empresa passou a atender também o Porto de Salvador e avalia novas ampliações conforme o crescimento da demanda.

Tecnologia acelera eficiência e novos investimentos

O avanço da logística no Nordeste também passa pela incorporação de novas tecnologias capazes de aumentar a produtividade, reduzir custos operacionais e oferecer maior controle sobre as operações. Empresas fornecedoras de equipamentos e soluções digitais avaliam que a modernização dos centros de distribuição deverá acompanhar o crescimento econômico da região nos próximos anos.

Para o diretor da Multylog Empilhadeiras, Romero Penna, o fortalecimento da economia cria um efeito em cadeia que beneficia toda a atividade logística, desde operadores até fornecedores de equipamentos e serviços especializados.

“O aquecimento da economia vai puxando toda a cadeia logística. À medida que os negócios crescem, aumenta também a necessidade de prestadores de serviços, equipamentos e soluções para dar suporte às operações. Tudo funciona bem quando existe uma boa logística”, afirma.

Durante a Multimodal Nordeste, a empresa apresentou empilhadeiras movidas a baterias de lítio, tecnologia que vem substituindo os equipamentos convencionais por oferecer maior autonomia e produtividade nas operações de armazenagem. Outro destaque é o sistema de gerenciamento de frotas por telemetria, que permite acompanhar, em tempo real, o desempenho das máquinas utilizadas nos centros logísticos.

Na avaliação do executivo, Recife já se consolida como um dos principais polos logísticos do Nordeste e tende a ampliar essa posição à medida que novos empreendimentos forem implantados.

“Recife é uma forte candidata a ser a capital da logística do Nordeste. O crescimento da feira demonstra isso, e certamente muitos negócios surgirão a partir desses encontros”, afirma.